segunda-feira, 26 de março de 2012

A despedida…


Sim, venho despedir-me. Está a chegar o dia… “Aquela” hora… O meu coração está cada vez mais fraquinho e já foi feito todo o reforço de medicamentos possível, penso eu. As minhas patas traseiras recusam-se a colaborar comigo e custa-me cada movimento. É cada vez mais frequente estatelar-me na tijoleira ou no empedrado do jardim e lá vem a dona, a correr, de lágrimas nos olhos, ajudar-me a levantar.
Passo muito tempo deitadinha, bem tapadinha com belas mantas polares e aquecida pela botijinha de água quente com que tanto embirrava… Ainda faz muito frio à noite e a casa não prima por ser climatizada…
Reina a paz, aparentemente…Oiço o burburinho dos pinheiros da propriedade ao lado e o crepitar da lenha na lareira. Sons que me apaziguam e permitem que caia nesta deliciosa semi-sonolência.
Ao longe, oiço a voz da dona… Ralha, para variar, com alguém dos restantes 23… Talvez com a Ammaia ou com a Missy, que passam a vida no wrestling, sei lá… Vou mesmo sentir a falta de tudo isto!
Passo a minha curta vida em revista e confesso que fui, e sou!, muito, muito feliz. Dediquei-me a esta humana de corpo e alma, sobretudo alma, já que o corpo sempre foi mais difícil de dominar. Recebi esta dedicação de volta, acho que até de forma exagerada e ansiosa…
O nosso dia-a-dia, os nossos rituais de afecto incondicional… As nossas férias na praia… Oh, as férias na praia… Quantas histórias, quantos episódios hilariantes! As minhas birras… As birras dela… Os meus aniversários e as prendas de Natal!!
Vou ter mesmo muitas saudades desta enorme, alegre e caótica família. A hora das refeições com todo aquele bulício, a dona no refilanço do costume, enquanto tropeça num e noutro e ainda noutro…
A falta que o meu Nininho, o meu grande companheiro, me fará… O Nininho, o cão mais cavalheiro que tive a oportunidade de conhecer… Já tão minado pelo reumatismo, mas sempre um gourmet! Aquele olhar quente que tanto carinho e fidelidade transmite. Tantos anos juntos!!!
E a Mishinha e o seu muito mau feitio?? Agora com os seus 12 anos, bem mais calma. Acho mesmo que mais descontraída… Bem, claro que continua a não resistir a distribuir umas belas patadas, bufadelas e rosnadelas a quem passa próximo… Misha imutável e inimitável!
O Chakinha, o nosso gordo ansioso… Agora anda melhor, pois já deve ter percebido, ao fim de todo este tempo, que aqui nada de mau lhe acontecerá e será sempre tratado como um príncipe. Os seus grandes e redondos olhos amarelo-latão deixam transparecer, já com uma certa frequência, um lampejo de infinita gozação. Tem-se integrado, felizmente, e é com estupefacção e satisfação que já o apanhámos a dormir com… a MISHA! Sem mais comentários…
O meu Binx, o gato mais dengoso e aristocrático que se passeia por aqui… Teve azar com o clima alentejano, mas de resto é feliz com esta incrível liberdade. Dedicou-se à “herança” (Gordo, Terri e Barriguinha) e passa o tempo com eles, junto à salamandra…
O Mirinho… O nosso lelito… Acalmou um pouco (mas só mesmo um pouquinho!) desde a esterilização, mas continua com a sua paixão pela pastorícia e com as suas ideias brilhantes, claro!, seguidas com entusiasmo pela sua fiel discípula e seguidora, a Ammaia… E, depois, admira-se por levar com a “Crise”!
Oh, e os “Juniores” (Mangas e manchinha), os “Metralhinhas” (Billy, Benny e Becky) e as Bratz (Pipa, Martinha, Matilde e Moїra)... Não reconheço alguns, sobretudo as últimas, pois estou completamente cega, mas sinto-as entre as minhas pernas e a tentarem partilhar a minha botijinha de água quente…
Vou ter mesmo muitas saudades das minhas quezílias com a Ammaiocas… Não me posso queixar, pois tem-me feito companhia nos meus períodos de grande exaustão e consequente prostração, períodos estes cada vez mais frequentes. E encosta-se muito, aquecendo-me com aquela corpanzil… Já nem consigo rosnar-lhe, só para mostrar quem manda… Isto apenas para não dar parte de fraca, claro!, já que me sabe imensamente bem tanto calorzinho. Chego a adormecer em paz, com uma saborosa sensação de segurança! Mas, que fique escrito, não sinto quaisquer remorsos por lhe ter feito a infância e a adolescência bastante difíceis. Eheheh…
A Zamba, o Brian, o Boy, a Missy… Não esquecerei nenhum, mesmo. Comigo irão todas as recordações dos bons momentos com tantos amigos!
O que lamento mesmo mais, é deixar a minha dona!
A apreensão invade-me. Uma enorme angústia incomoda-me de forma atroz… Quem, Qual deles, terá paciência para a ouvir noites sem fim? Quem lhe emprestará uma omoplata para chorar as suas penas?? Quem a acompanhará, passo a passo, minuto a minuto, dia a dia, drama a drama, no resto da sua vida??? E quem se rirá a bandeiras despregadas com os seus inúmeros disparates e exageros?
A Zamba, talvez, a Zamba dos olhos doces… Talvez seja ela quem vai ocupar o meu lugar na vida e no coração da dona. A Zamba que só vive e respira se a generala estiver por perto… Qualquer ida dela a Lisboa deixa esta pequena companheira em profunda depressão. Como se a dona não voltasse mais!
Oh, como já estou cheia de saudades!!!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Ammaia e a dona...


O frio chegou! Aquele calor que me estava a matar em lentos episódios deu lugar a este super fresquinho que me incentiva a estar no jardim a ladrar para o ar. Finalmente… Andamos bem dispostos e muito mimados, já com lume aceso e mantinhas polares em todas as caminhas. Bem, todos, todos, penso que é exagero, pois a nossa matriarca humana nunca anda nada feliz, ultimamente…
A anedota continua! A dona tem redobrado os cuidados com a Ammaia, devido à sua surdez, mas, mesmo assim, as coisas continuam a acontecer…
Esteve um imenso mau tempo… Ventos avassaladores, aqui, nestas terras altas, destruíram imensas coisas, nomeadamente as simpáticas placas transparentes que o senhorio colocou sobre a porta principal para a proteger da água, e quase rebentaram com a vedação que é reforçada quase mensalmente, de forma a evitar “saídas” extemporâneas do recinto. Pois, não sei bem porquê, mas há sempre algum azar…
E nós, aqueles que não vemos qualquer utilidade em fugir de casa, vamos gozando as cenas que animam o nosso quotidiano…
A Ammaia, sempre que apanha a cancela aberta, corre para a parte superior da imensa propriedade onde estamos alojados e desaparece. Sim, não sei como é possível, mas este colosso consegue mesmo deixar de ser vista!! Logicamente, a nossa humana entra imediatamente em pânico e lá vai, que nem um vento ciclónico atrás dela! Chamar não vale a pena, pois a moça, embora sinta qualquer coisa tipo vibrações, não consegue localizar e normalmente parte na direcção oposta.
Visto cá de baixo, tem imensa graça: elas encontram-se, a dona avança, a Ammaia recua e larga aos pinotes como se pretendesse que a nossa mestra corra atrás… O que acaba por acontecer, na maioria das vezes. E é apreciar: uma mancha branca gigantesca aos saltos até desaparecer na zona de mato alto, com alguns pinheiros, seguida a certa distância por uma figurinha de preto a dar às pernas e aos braços como se a sua vida disso dependesse. Desaparecem completamente!! Durante uns minutos nada acontece, o que nos deixa na expectativa: será? Será que a dona consegue??
O molosso branco ressurge, repentinamente, sempre em grandes saltos de felicidade e, atrás, bem lá atrás, vem a sargenta, esbracejando sempre, já a deitar os bofes pela boca. A cena repete-se durante um bom bocado, o suficiente para que as vizinhas mais idosas se juntem no portão a olhar embasbacadas… Elas entram no mato… Elas saem do mato… A Ammaia sempre em primeiro lugar, claro!!
A certa altura, depois de umas quantas entradas e respectivas saídas, a dona vem, soprando de fúria, por ali abaixo, até casa. Transpira que eu sei lá e tem lama um pouco por todo o seu ser. Lama? E folhas, e galhos, e sei lá que mais…
Entra furiosamente em casa e sai da mesma forma, mas com um saco de “presentes” na mão. Corre pelo campo até à zona onde se encontra a donzela de branco e abana vigorosamente o dito. A outra olha, muito desinteressada, e volta a desaparecer… A dona galopa atrás dela e nós ganimos pela injustiça toda: então, e nós? Não temos direito a prémio?? Pelo nosso bom comportamento e solidariedade??
Passa-se um bocado, um grande bocado sem que haja um pequenino sinal de vida, até que lá avistamos a almiranta, muito devagarinho, e a Ammaia, sempre desconfiada… É a história do Polegarzinho, sem dúvida! A ver se a consegue atrair até casa, a dona vai deixando cair um pequeno ossinho de biscoito de cada vez, e a outra, muito alerta, vai comendo… Parece mesmo que vai resultar, mas quando já estão bem próximas da cancela, dá uma travadinha ao monstro branco e lá vai ela, campo fora, desaparecendo naquela já muito referida zona! Sempre aos pulos…
A dona passa-se… Nervosíssima, e para nos calar, dá um biscoito a cada um, e volta a sair muito apreensiva, pois, em breve, terá que regressar à escola…
Arrepende-se, volta atrás e : “Zamba, anda!”. A injustiça é cada vez maior!! Ficamos no jardim, feitos monos e a Zamba vai passear???
“Zamba, busc`Ammaia!”, ordena, embora já não consiga pronunciar bem as palavras. A nossa companheira cor de mel, mete o nariz colado ao solo e corre, corre em zig-zag, campo acima e desaparece no mesmo local… Passado um pouquinho regressa a toda a velocidade com a Ammaia, em estado de pura loucura, no seu encalço… A dona também corre e dá a impressão que é desta! Já quase, quase em casa, cancela aberta, marechala e Zamba muito ofegantes, a moça perde o interesse e volta sabe-se lá para onde que lhe causa tanta alegria…
A hora de almoço está a chegar ao fim e alguém precisa voltar para o trabalho. E é o que a dona faz, de coração apertado e ombros descaídos, tal a frustração. Passará a tarde em grande aflição, se bem a conheço.
Às cinco da tarde, pontualmente, ouvimos o nosso carro a estacionar e os passos apressados da dona. O alívio está bem patente no seu rosto e postura: a Ammaia encontra-se encostada à porta, desconsoladíssima, dando aqueles gritos agudos lancinantes, como que a contar a toda a vizinhança que foi ignominiosamente abandonada!!! Mais uma vergonha, enfim!!
A da semana passada, foi bem mais grave!!
A Ammaia fugiu mais uma vez, mas desta em muito más companhias: Miro e Rufus! Rapidamente a ensinaram a atravessar para a propriedade ao lado daquela em que vivemos. Ao longe, a dona constatou, horrorizada, que o portão da dita se encontrava escancarado e correu para lá. Mau, muito mau o que se adivinhava!!
O Rufus e o Miro, assim que viram a generala em corrida furiosa, fugiram cada um para seu lado…
O Rufus na direcção mais errada… com a Ammaia atrás! Rumo à estrada que vai para Espanha e onde quase todos os veículos, sobretudo os pesados, circulam, acelerando até à mais absoluta ilegalidade…
E para a estrada foram os três: Rufi na frente, bisonte branco a curta distância e em grandes pulos de suprema felicidade e a generala, mais velha, pesada e cansada, em último, sempre a perder terreno, gritando e esbracejando…
Vem um camião e a dona faz sinais até que desiste e desata a correr pelo meio da estrada atrás da Ammaia. A Ammaia, entretanto, e mesmo em cima duma curva traiçoeira, estaciona ocupando parte das duas faixas de rodagem… O camião que persegue a dona, abranda… A estrada está molhada da chuva… Carros buzinam, penso que de preocupação… Em sentido contrário, vem outro camião… Ammaia continua no mesmo sítio… A dona também, mas grita com toda a alma… Ela não dá por nada de nada, toda contente a sentir o asfalto… Um vizinho corre para ajudar… A dona tapa os olhos…
Acabou bem, mesmo assim: no último momento, pelo menos foi a impressão que deu, a parva da cadela correu para a berma, pois apeteceu-lhe urinar, a dona conseguiu deitar-lhe mão à coleira e pô-la em segurança!
Moral da história: eram umas cinco horas da tarde, mas o Miro e o Rufi só voltaram às dez da noite, muito rastejantes e submissos!! E sem jantar!!
Enfim, no dia seguinte esta monstruosa criatura “comeu” 55€, em notas!!
Será que a dona vai conseguir preservar a sua (e a nossa por acréscimo…) sanidade mental???

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Ammaia (parte 3)


E voltei!! Sim, voltei porque acho que tenho que acabar a minha perspectiva da Ammaia o mais depressa que posso para me dedicar a outras “aventuras bem mais loucas!
Continuo a afirmar que esta minha companheira de casa é uma enorme seca! E adoro, divirto-me imenso a mostrar-lhe todo o meu desprezo.
Sempre lhe rosnei, mesmo em pequenina, quando se aproximava de mim ou do que considero ser o meu espaço. E ela, pobrezita, encolhia-se e acabava por se retirar para a sua caminha ou almofada mais próxima. E o gozo que dava vê-la tentar trepar para a cama da dona, onde normalmente me encontrava, e cair?? E chorava, chorava… Eheheh… Pois, mas agora nem precisa de saltar ou trepar: só tem que levantar as patas e pronto!, já está refasteladíssima.
Volta e meia, dá-lhe uma de “amor” e vem ter comigo, dando-me beijinhos e mais beijinhos. Eu ponho o meu ar mais majestático e até permito mais esta prova de vassalagem… Se a almiranta não estiver a ver, claro! Porque se, por acaso, a minha guru andar por perto, dou logo uma rosnadela imponente seguida de uma tentativa de morder, o mais real possível e sigo o meu caminho. É divertidíssimo ver como fica desorientada.
À hora das refeições, estaciono paciente e expectantemente frente ao meu prato… E espero sem tocar num bocadinho que seja. Eheheh… O monstro devora tudo quanto se encontra no pratalhão que lhe é distribuído, sem qualquer vestígio de boas maneiras. E eu continuo à espera, sempre muito atenta à comidinha que repousa, apetitosa… A Ammaia levanta finalmente a cabeça e olha em volta. Huummm, vê a minha porção intacta… E avança… E eu vou aproximando o meu focinho do reluzente recipiente… Até que a moça abusa e tenta roubar-me descaradamente! O meu rosnar, inicialmente baixo, aumenta de tom até que finjo que a vou atacar, arreganhando o que me sobra de dentes e fazendo uma investida rápida, Eheheh… Nunca falha!! E até me abre o apetite, todo este teatro, comendo com gosto, lambendo o prato para que não reste uma micromigalhinha que seja!!!
Confesso que, no dia em que ela se entreteve a devorar a embalagem de Denosyl, o protector hepático do nosso idiopático nº 1, o Mirinho, fiquei seriamente apreensiva. Teria aí uns 4 ou 5 mesinhos… Foram só cerca de 20 comprimidos, a literatura inclusa e mais uns 2/3 da embalagem de cartão! Vá lá que a parte que não engoliu tinha o nome do medicamento para a dona poder orientar-se.
A nossa sargenta chegou, como é hábito, às 17.00 horas. Ainda vivíamos na casa do “Avô”. Mal entrou na sala da televisão, ficou gelada ante a visão de bocadinhos avermelhados espalhados pelo chão, juntamente com fragmentos variados de papel e cartão. Que teria acontecido?
Ao ver o pequeno hipopótamo de borracha vermelha despedaçado, ficou temporariamente mais tranquila… Temporariamente, foi o tempo de atravessar a sala até ao quarto de dormir… O armário de parede encontrava-se de portas escancaradas e a caixa dos medicamentos sem tampa… Acho que a mulher cambaleou de horror!! Foi quando descobriu o bocadinho que dizia “Denosyl”…
Conseguindo arranjar forças, alcançou o telefone e ligou para a doutora. A senhora preveniu-a que a Ammaia iria ter diarreia e má disposição, mas que não era grave, para a nossa matriarca estar descansada.
Ninguém previa o que se seguiu depois!! Má disposição?? Diarreia??? Nãâããooo… Às 21.00 horas, a mocinha largou a vomitar, e de kilo!, ao mesmo tempo que assumiu um andar cambaleante, atirando-se contra portas e paredes e acabando estendida no chão a contorcer-se de dor e dando verdadeiros urros arrepiantes!!
Andávamos todos atrás dela, em procissão, horrorizados e solidários. Nem eu fiquei indiferente com tal sofrimento e até tentei animá-la. Nada conseguia travar aquele frenesim de agonia em “macro”!
À meia-noite, e depois de muitas conversas com a veterinária, o tio Miguel chegou e saíram os três, a Ammaia em braços…
Voltaram tarde, bastante tarde. Parece que a cachorrinha desidratou em massa e teve que ser “compensada”. Não sei o que lhe deram, mas gradualmente foi acalmando e acabou por adormecer na nossa cama da dona, pobrezinha. Aliás, dormiu também todo o dia seguinte… Um descanso!!
Verdade seja dita, eu, em cachorra, fiz montanhas de asneiras, sendo a mais famosa aquela de roer as colheres de pau e engolir os pedacinhos de madeira, ao mesmo tempo que destruía os telefones de porta (4 numa única semana!) e digeria todas aquelas pecinhas brilhantes… Ia morrendo… A dona ainda guarda o Raio-X, onde se pode ver o meu intestino bastante inchado e cheio de pontinhos brancos… É que já fui cachorrinha, numa outra era qualquer!!
Aqui, a minha companheira de porte muito pouco económico fez uns quantos estragos em grande, mas agora anda um pouco mais calma, embora esteja sempre a “ruminar”, enquanto olha para o infinito. Vai fazer dois anos, mas parece maior, a cada dia que passa. E aquele olhar de suprema infelicidade não desaparece. Agora descobriram que é surda. O tal pigmento branco… Terá que fazer mais uns testes, mas que a maioria das vezes não dá fé de nada, é bem verdade. Bem que a dona dizia que ela era autista…
E eu? Serei 0 quê?? Uma santa, só pode!!!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Algumas novidades...


Oh, a vida continua muito difícil e estranha. O “Avô” morreu no dia 11 de Julho… Pensámos que era mesmo o fim da dona e o nosso, claro! Passou uma data de tempo sem falar, não comia, atrasava-se com as nossas refeições e, pior: não queria sair da cama!!! Que ano pavoroso, sinceramente!
O Verão não correu como das outras vezes, não. Bem que ansiávamos pelas idas à barragem e respectivos petiscos, mas nada!! Nem os novos habitantes da casa a faziam querer viver…
Sim, apareceram mais uma data de “inquilinos” para esta, já de si pequena, habitação. O Rufus, um cãozinho preto de pêlo cerdoso, veio no dia 10 de Abril, muito cabisbaixo, rosnento e desconfiado. Os “metralhinhas”, três pequenos gatinhos, muito raquíticos, em hipotermia, vieram no dia 21 de Abril, quinta-feira santa. Foi um achado da Ammaia que, na altura, andava com a mania dos sacos de lixo e encontrou um no rio Sever e não o largava. Claro, deu logo que havia “prenda”, a maluca!! São o Billy, o Benny e a Becky. Entretanto, e nas vésperas do desaparecimento do pai da generala, outra aquisição: a Missy!! Uma podengosa que parece filha da Zamba, com cerca de três meses e destino marcado para abate no Canil de Portalegre, chorosa, desgostosa mas com imensa energia…
A situação não ficou por aqui: “herdámos” o Brian, um boxer todo babão de quase cinco anos e mais quatro gatos, do “Avô”. Como se não bastasse, veio a Pipa, a Martinha e a Matilde, três simpáticas felinas, sendo as duas últimas a novidade do fim do mês de Setembro.
A horta conseguiu tirar a dona da alarmante letargia que não a deixava viver. Todas as manhãs, por volta das seis horas, lá ia ele com as suas galochas, voltando às 10.30 muito porquinha, terra a cair-lhe de todo o lado, incluindo cabelo, muito bronzeada, com caixas de tomate, beringelas, courgettes e feijão verde mas nada alegre. Mas já se mexia um pouco, o que já era uma esperança.
E fiz 14 anos!!! Afinal cheguei a mais um aniversário e benzinho de saúde. A dona, o tio Miguel e a tia Fernanda fizeram um almocinho muito especial, e só para mim: picanha assada no forno, com batatinhas e cebolinhas da nossa horta e chutney de tomate e maçã de chorar por mais. A entrada foi courgettes gratinadas com queijinho… Foi demais!!
Os outros não foram convidados desta vez, pois a generala decidiu que o dia era só, só meu. Dispensava era aquela cantoria parva dos “parabéns à Petrinha”, mas com as fatias de carne que me couberam, até aguentei muito bem e sempre bem disposta. Mas cansei-me imenso! A ida até Marvão para o almoço e tanto tempo fora de casa…

terça-feira, 28 de junho de 2011

A Ammaia (parte 2)


Bem, voltei! O calor está aí e a generala já não me deixa andar na rua à vontade, justificando-se com o meu coração. Pois… Desculpas!
Estou farta de gozar: temos mais um elemento idiopático cá em casa!! E quem é? Quem é? A almiranta!!! Deu-lhe para isso, agora… Eheheh… Tem estado com humor de “humano”, que ninguém a atura, e resolveu ir ao médico. Eheheh… Está tipo Chakinha, com cistite idiopática!!! Não é demais???
Ora, o melhor mesmo é retomar a saga chamada “Ammaia”, porque se a patroa sonha que estou a divertir-me à custa dela, acabam-se todos os passeios, de certeza!!
Ora a mocinha foi crescendo, crescendo, crescendo… Tornou-se um monstro musculado, diria mesmo, blindado. Continua com aquele olhar muito infeliz, totalmente miserável, embora não se entenda porquê. Mesmo quando faz asneira, põe aquele “arzinho” de suprema infelicidade e esconde-se debaixo da peça de mobiliário mais próxima, o que ainda agrava mais a sua já péssima situação, pois acontecem cenas como mesas viradas e seus bibelots partidos, cadeiras voadoras e cabeçadas estrondosas.
Este olhar infeliz, muito, muito infeliz, desaparece com o cair da noite… Porque será?
Quando nos sentimos prontos para descansar nas nossas caminhas, ela decide entrar em grande actividade! E lá começa mais um delírio…
Pede para ir ao jardim, a dona abre-lhe a porta porque já não aguenta mais uma grande cavalgada pela casa, com tudo a abanar, e ela sai que nem um torpedo!
Em casa do “Avô”, em Marvão, a coisa era complicada. Eu explico:
O tempo ia passando e nada de Ammaia… E a generala quer deitar-se… E nós idem… E a Ammaia nada, na mesma! A dona chama… E, mais uma vez, nada! Exasperada, decidia ir em busca da desaparecida.
O jardim não tem luz na parte de cima, mas se procurássemos atentamente, conseguíamos vislumbrar uma mancha gigante branca deslocando-se em grande velocidade… De repente, qual filme de terror, do nada muito escuro surgia um monstro branco de olhar alucinado, raiado de sangue, e um enorme barrote de madeira atravessado na boca: a Ammaia encontrava-se em “fitness”!!
A generala, impaciente porque já era muito tarde, avançava… Ela recuava com o dito trambolho… A nossa mestra tentava encurralá-la, mas ela esquivava-se, nunca largando o monstruoso artefacto… E corre… E o trambolho era tão grande que batia em duas árvores, sendo a jovem projectada para trás com a violência do impacto… A cena prolongava-se durante um bom bocado. Até a dona se chatear muito a sério…
Enfim, parecem chegar a um acordo estratégico, mas muito pouco ortodoxo: a nossa humana corre e a safadinha persegue-a… “Alvo em movimento! Alvo em movimento!!”, é o que devia pensar. Mais uma corrida, desta feita até á porta de casa, e entravam as duas esfalfadas, uma irradiando felicidade, a outra da maneira do costume, ou seja, fervendo de fúria e assumindo lindas cores a condizer!! Eheheheh… Gand´animação!!!
E a Ammaia continuou a crescer, a crescer (e ainda cresce!) e com este descalabro de crescimento físico, também cresceu o seu amor pelo Mirinho!
O Mirinho que, coitado, neste momento não chega a um terço do tamanho dela… Os dois passam, normalmente, os dias em grandes confrontos físicos, afinfados nas bochechas um do outro, a correr em grande despique pela casa, o que , sinceramente, não dá muito jeito… E a dona, como não podia deixar de ser, passa-se completamente! E ameaça… Agora mudou um pouco o discurso, pois aqui não há nem canil, nem gatil, eheheh…
“Vocês querem que me vá embora, querem??? Parece!!! E depois quem vos dá comidinha? Sim, quem, quem?”
Acho que não vale a pena relatar tudo: passa pela hipótese de se mudar para uma tenda na quinta, pelo nosso abandono nesta casa perdida entre as montanhas, onde as trovoadas se sentem com maior intensidade… Nada que não seja o normal! E a correria, os estrondos provocados por objectos a cair continuam… E a nossa guru, prefere ir tomar uma bebida a Espanha!
Pessoalmente, acho a Ammaia uma seca! Não percebo porque é que a dona a quer, honestamente. Ocupa um espaço imenso… O ressonar dela é tão sonoro que não deixa ninguém dormir… Come que nem um Rafeiro do Alentejo! Pior, rumina!!! Rumina tudo!! Papel, canetas, edredons, mantas, arbustos, lenha, brasas, esfregões…
Continuarei noutro episódio! Afinal, esta minha “familiar” é tão grande, que bem merece uns três ou quatro episódios!! Fico muito cansada só de pensar em todas as desventuras desde que veio viver connosco…

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Ammaia (parte 1)


A Ammaia chegou no dia 6 de Fevereiro… De proveniência desconhecida… Uma bola de carne e pêlo, fedorenta, chorosa e de cor parda… Sobretudo, muito chorosa e fedorenta… Acho que preferia os porcos e as galinhas com quem, com certeza, confraternizava…
Tinha cerca de mês e meio e um daqueles olhares miseráveis, tristes, do estilo:”Sou montanhas de infeliz!”
Foi gasta uma embalagem inteira de toalhetes, até conseguirmos verificar que, afinal, era branca, com uma mancha preta junto à cauda e outra no flanco direito.
É uma Rafeira do Alentejo, dizem os entendidos…
As regras criadas pela dona, ditaram que fosse logo ao vet, onde foi desparasitada interna e externamente, e pesada: 5.100Kg de cadela!!! E só com mês e meio…
Rosnei apreensiva: “Não, isto não vai correr nada bem!”
Arranjou, no meio de todo aquele desamparo, uma amiguinha: a Cinza. A nossa Cinza acolheu-a sem qualquer reserva, deitando-se com ela como se compreendesse e solidariezasse com o desgosto que esta cria de tamanho gigante sentia. Sempre que era ostracizada ou escorraçada pelos restantes membros desta cada vez mais numerosa família, a pobre da rafeirinha lá a procurava para se deitar mais consolada. E a Cinza prestava-se imediatamente para a reconfortar.
O segundo amigo a aproximar-se foi o nosso “lelito”. O Miro, com a mania da “paternidade”, bem depressa se tornou o seu leader espiritual… Para o bem e para o mal! Sobretudo, para o mal…
O monte de pêlo já definitivamente branco deixou de chorar para correr desajeitadamente atrás deste que se iria tornar o seu melhor amigo.
Inicialmente, a dona, a conselho do vet, alternava a ração júnior com papas Cerelac… Sim, durou uns três dias a boa da dieta. A jovem lá ia comendo a ração, mastigando vagarosamente, enquanto olhava em volta, apática de todo. Chegava mesmo a esquecer-se que tinha a boca cheia pelo que levava um ou outro safanão para se lembrar de continuar a mastigar.
A história das papas Cerelac era mais complicada: sentava-se frente ao prato, olhando distraidamente para qualquer ponto distante, à espera que a generala lhas desse. À colher!!! Isso aconteceu no primeiro dia… E no segundo… Ao terceiro acabaram-se as papas com um vigoroso: “Era só o que me faltava!! Agora a dar comida à colher a um cão…”
Apesar de não haver mais Cerelac, a rapariga começou a desenvolver-se e muito! Diria mesmo que demais!! O Miro, seu guru, tornou-se igualmente, a sua vítima favorita. Dias e grande parte das noites eram passados em grandes treinos de wrestling. Muito, muito cansativo para os restantes familiares!
Foi-se fazendo uma força bruta, indo tudo à sua frente nem que fosse aos encontrões: “Mesas, armários, árvores, dona… saiam da frente que não me desvio!”
Bem, também estou a exagerar um pouco, pois, inicialmente, nem se mexia muito, já que era uma grande canseira. Comia sentadinha, sempre muito desconcentrada… À medida que foi crescendo, o cansaço era tanto que passou a comer deitada, focinho bem enterrado no prato. Sei lá, devia dar mais jeito, não sei…
Tinha pequenos períodos de grande actividade aí até aos sete meses. Nessas alturas, dava-lhe a “travadinha” de tal forma que não havia quem a aguentasse. Até o Simãozinho, o nosso “coraçãozinho de ouro” se levantava nas patas traseiras e a esbofeteava com toda a alma da sua patinha aleijadinha…
O Nininho e eu, ambos já com uma idade respeitável, ficávamos tão irritados, tão irritados, que nos esfalfávamos a rosnar e a ladrar, acabando por nos refugiarmos, já sem voz, na cama da dona, como se fossemos náufragos numa pequena ilha. E defendíamos este domínio “insular” com unhas e dentes, das investidas da ainda muito jovem mamute branca. E a Ammaia chorava, chorava, rosnava e ladrava terminando com lancinantes gritos selvagens, furiosa, enquanto tentava saltar para perto de nós… Acabava sempre por cair desamparada e, finalmente derrotada, lá se deitava numa das muitas caminhas, triste, triste, triste… E nós sorríamos… Sorríamos com imenso prazer!!! Eheheh…
E já estou cansada de tanto falar… A minha idade já não permite que me alargue por muito tempo, pelo que continuarei a odisseia com a Ammaia, em breve!
rascunho

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O "Falta-me um!!!"


Voltámos para nossa casa…
Bem, não deve ser a mesma casa de Alfragide, mas os móveis, os caloríferos e seus odores são os mesmos!
É uma casinha pequena, como aquela em que vivi tantos anos, só que desta vez tem lareira e um belo terreno para estarmos à vontade! E não tem escadas!!! Não, não é Alfragide! Hummm, e Marvão, também não…
Já percebi que ainda não é a nossa quinta, pois não sinto o poço, não oiço o ribeiro e não tem aquele cheiro almiscarado das raposas… Mas o Boy veio viver connosco!
A estrada para Espanha passa perto, mas a dona mandou vedar uma parte do terreno para evitar acidentes… O pior são os nossos amigos felinos… Têm artes, como diz a almiranta! E as cenas do “Falta-me um!!” repetem-se!!
Que pancada, a da nossa dona!
Lembro-me de um episódio em particular, estávamos ainda na casa do “Avô”, em Marvão, e era Inverno. Eu conto!!
A casa, como já referi anteriormente, é enorme e se bem que só ocupássemos o andar de cima, o seu terraço e o imenso jardim, sempre eram 6 divisões, mais a sala-cozinha e as duas casas de banho. À noitinha, para descansar em paz, a nossa tutora punha-se a contar os gatos… Só para ver se estavam todos, claro.
E começava na cozinha… Contava três… No hall, mais um… Na sala da televisão, mais dois… A Misha, nas escadas… E…
“Falta-me um!!!”, gritava, desesperada.
Recomeçava a contagem… Dois no quarto principal… Três na sala da TV… Dois na sala de jantar… E…
“Falta-me um!!”, lamuriava. “Binxas, onde ´tás?”
É preciso ter muita paciência para o que se seguia: ela a andar pela casa toda a contá-los e recontá-los… Por sua vez, eles, felinos que são, a passear de divisão para divisão, sorrateiros, por baixo de cadeiras e cadeirões, mesas e mesinhas… Esta cena durava, durava, durava… As lágrimas já lhe invadiam os olhos, as mãos tremiam-lhe de nervosismo e ansiedade!!
Resolvia, então, atrair o “desaparecido” com comidinha: alinhava os oito pratinhos, pegava nos diferentes copos de medida de rações e… Afinal, estavam todos, até o “desaparecido”, sempre com aquele arzinho dengoso!!
Um dia, a dona não encontrava a Cinza… E lá começou tudo, mas uma vez…
“Falta-me um!!”, gritava, completamente desorientada, correndo casa e jardim num frenesim de loucos.
“Cinza, Cinzinha, onde ´tás??”
“Bsss… bsss… Bebé, linda, anda!”
Embora não conseguisse ter a mesma perspectiva que tinha em Alfragide, para apreciar melhor a cena deitei-me no sofá que se encontra na sala-cozinha. E suspirei, preparando-me para mais uma tragédia!!
A comandante entrava e saía, num desespero comovente…
Sentados, um pouco por todo o lado, estavam os nossos irmãos felinos, à excepção da Cinza, claro!, muito curiosos… O Miro e o Nino seguiam-na para todo o lado, os tontos, os gandas graxistas, fingindo participar activamente em mais uma busca pela mocinha…
A “mocinha”, por sua vez, andava no meio deles, acompanhando-os neste incessante vaivém, bem coladinha aos calcanhares da dona que, nesta fase, já se encontrava de lágrima no olho e voz embargada pelo futuro desgosto:
“Pronto! Agora nunca mais a vejo!!”
Mais uma voltinha frenética à casa e ao jardim… E mais chamamento, saindo do mais fundo da sua alma… Nada!
“Já não volta, de certeza, tão pequenina, perdida por aí, nesse mundo cheio de perigos…” (Aqui, até já eu choro!!)
E o Miro e o Nino e a pequenina tão “perdida” nesse mundo cruel, sempre no seu encalço… E a restante população de olhos arregalados de estupefacção!
Ao fim de uma hora de trânsito intenso, senta-se, derrotada, frente ao lume e prepara-se para o “abanicar”… (“Santa Natureza, a Cinza que se mostre, antes que morramos todos intoxicados!”, penso!) Nisto, a nossa matriarca humana olha em volta e vê a Cinzinha sentadinha, bem a seu lado, muito seráfica, com aquele ar cândido, a observá-la…
Bem, o reencontro foi comovente: muito beijinho, muito abracinho, muita lamúria e juras de amizade incondicional a uma felina completamente em pânico e desejando nunca ter “aparecido”!
O regresso da filha pródiga! Pródiga, não sei em quê… Quanto ao regresso… Ela nem tinha saído de casa!
A nossa dona é muito, muito estranha!! Pois, mas agora já a compreendo.
A Cinza desapareceu mesmo, aqui, no nosso novo domicílio, no dia 14 de Janeiro… Foi um pesadelo, com a dona constantemente a chamá-la, a procurá-la desenfreadamente, dias e dias e dias a fio… A meio da noite, levantava-se: “É a Cinza! Ela voltou!!” Mas não era… Nunca mais voltou!
A Maria também desapareceu… No dia 19 de Fevereiro!
Andava já constantemente doente. O único rim que funcionava, estava a falhar cada vez mais frequentemente e já custava vê-la encolhida, cheia de dores… Os internamentos tornaram-se mais longos e desta última vez, tinha voltado para casa no dia 16, depois de oito penosos dias a soro e a injectáveis…
Aproveitou uma ida da dona a Lisboa e, iludindo a vigilância de um amigo SOS, conseguiu escapar…
A dona chegou uma hora depois e foi o descalabro. Chamou, pediu, implorou… “Maria, por favor não me faças isto…” Pois…
As buscas incansáveis… As lágrimas descontroladas… Veio tudo, acho eu: a morte da “Avó”, a Cinza, o Fausto, a vida muito dura desde que para aqui viemos… Nunca a vi assim, sério!
E, claro!, o Simão adoeceu! Por stress, por saudade da Maria, porque já não a podia ouvir… ou muito simplesmente, porque tinha que ser assim! Nunca recuperou, pobrezinho! Foi adormecido no dia 7 de Março…
Aí, pensei que morria a dona também. Desinteressou-se da casa, desinteressou-se de nós… Muito simplesmente desinteressou-se. Até deixou de falar… Preocupante, muito preocupante…
Será que vêm melhores dias?