segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Ammaia (parte 1)


A Ammaia chegou no dia 6 de Fevereiro… De proveniência desconhecida… Uma bola de carne e pêlo, fedorenta, chorosa e de cor parda… Sobretudo, muito chorosa e fedorenta… Acho que preferia os porcos e as galinhas com quem, com certeza, confraternizava…
Tinha cerca de mês e meio e um daqueles olhares miseráveis, tristes, do estilo:”Sou montanhas de infeliz!”
Foi gasta uma embalagem inteira de toalhetes, até conseguirmos verificar que, afinal, era branca, com uma mancha preta junto à cauda e outra no flanco direito.
É uma Rafeira do Alentejo, dizem os entendidos…
As regras criadas pela dona, ditaram que fosse logo ao vet, onde foi desparasitada interna e externamente, e pesada: 5.100Kg de cadela!!! E só com mês e meio…
Rosnei apreensiva: “Não, isto não vai correr nada bem!”
Arranjou, no meio de todo aquele desamparo, uma amiguinha: a Cinza. A nossa Cinza acolheu-a sem qualquer reserva, deitando-se com ela como se compreendesse e solidariezasse com o desgosto que esta cria de tamanho gigante sentia. Sempre que era ostracizada ou escorraçada pelos restantes membros desta cada vez mais numerosa família, a pobre da rafeirinha lá a procurava para se deitar mais consolada. E a Cinza prestava-se imediatamente para a reconfortar.
O segundo amigo a aproximar-se foi o nosso “lelito”. O Miro, com a mania da “paternidade”, bem depressa se tornou o seu leader espiritual… Para o bem e para o mal! Sobretudo, para o mal…
O monte de pêlo já definitivamente branco deixou de chorar para correr desajeitadamente atrás deste que se iria tornar o seu melhor amigo.
Inicialmente, a dona, a conselho do vet, alternava a ração júnior com papas Cerelac… Sim, durou uns três dias a boa da dieta. A jovem lá ia comendo a ração, mastigando vagarosamente, enquanto olhava em volta, apática de todo. Chegava mesmo a esquecer-se que tinha a boca cheia pelo que levava um ou outro safanão para se lembrar de continuar a mastigar.
A história das papas Cerelac era mais complicada: sentava-se frente ao prato, olhando distraidamente para qualquer ponto distante, à espera que a generala lhas desse. À colher!!! Isso aconteceu no primeiro dia… E no segundo… Ao terceiro acabaram-se as papas com um vigoroso: “Era só o que me faltava!! Agora a dar comida à colher a um cão…”
Apesar de não haver mais Cerelac, a rapariga começou a desenvolver-se e muito! Diria mesmo que demais!! O Miro, seu guru, tornou-se igualmente, a sua vítima favorita. Dias e grande parte das noites eram passados em grandes treinos de wrestling. Muito, muito cansativo para os restantes familiares!
Foi-se fazendo uma força bruta, indo tudo à sua frente nem que fosse aos encontrões: “Mesas, armários, árvores, dona… saiam da frente que não me desvio!”
Bem, também estou a exagerar um pouco, pois, inicialmente, nem se mexia muito, já que era uma grande canseira. Comia sentadinha, sempre muito desconcentrada… À medida que foi crescendo, o cansaço era tanto que passou a comer deitada, focinho bem enterrado no prato. Sei lá, devia dar mais jeito, não sei…
Tinha pequenos períodos de grande actividade aí até aos sete meses. Nessas alturas, dava-lhe a “travadinha” de tal forma que não havia quem a aguentasse. Até o Simãozinho, o nosso “coraçãozinho de ouro” se levantava nas patas traseiras e a esbofeteava com toda a alma da sua patinha aleijadinha…
O Nininho e eu, ambos já com uma idade respeitável, ficávamos tão irritados, tão irritados, que nos esfalfávamos a rosnar e a ladrar, acabando por nos refugiarmos, já sem voz, na cama da dona, como se fossemos náufragos numa pequena ilha. E defendíamos este domínio “insular” com unhas e dentes, das investidas da ainda muito jovem mamute branca. E a Ammaia chorava, chorava, rosnava e ladrava terminando com lancinantes gritos selvagens, furiosa, enquanto tentava saltar para perto de nós… Acabava sempre por cair desamparada e, finalmente derrotada, lá se deitava numa das muitas caminhas, triste, triste, triste… E nós sorríamos… Sorríamos com imenso prazer!!! Eheheh…
E já estou cansada de tanto falar… A minha idade já não permite que me alargue por muito tempo, pelo que continuarei a odisseia com a Ammaia, em breve!
rascunho

Um comentário:

Pimas disse...

Quantas saudades destas histórias tão peculiares...ainda bem que "regressou" :)!