quarta-feira, 22 de junho de 2011

O "Falta-me um!!!"


Voltámos para nossa casa…
Bem, não deve ser a mesma casa de Alfragide, mas os móveis, os caloríferos e seus odores são os mesmos!
É uma casinha pequena, como aquela em que vivi tantos anos, só que desta vez tem lareira e um belo terreno para estarmos à vontade! E não tem escadas!!! Não, não é Alfragide! Hummm, e Marvão, também não…
Já percebi que ainda não é a nossa quinta, pois não sinto o poço, não oiço o ribeiro e não tem aquele cheiro almiscarado das raposas… Mas o Boy veio viver connosco!
A estrada para Espanha passa perto, mas a dona mandou vedar uma parte do terreno para evitar acidentes… O pior são os nossos amigos felinos… Têm artes, como diz a almiranta! E as cenas do “Falta-me um!!” repetem-se!!
Que pancada, a da nossa dona!
Lembro-me de um episódio em particular, estávamos ainda na casa do “Avô”, em Marvão, e era Inverno. Eu conto!!
A casa, como já referi anteriormente, é enorme e se bem que só ocupássemos o andar de cima, o seu terraço e o imenso jardim, sempre eram 6 divisões, mais a sala-cozinha e as duas casas de banho. À noitinha, para descansar em paz, a nossa tutora punha-se a contar os gatos… Só para ver se estavam todos, claro.
E começava na cozinha… Contava três… No hall, mais um… Na sala da televisão, mais dois… A Misha, nas escadas… E…
“Falta-me um!!!”, gritava, desesperada.
Recomeçava a contagem… Dois no quarto principal… Três na sala da TV… Dois na sala de jantar… E…
“Falta-me um!!”, lamuriava. “Binxas, onde ´tás?”
É preciso ter muita paciência para o que se seguia: ela a andar pela casa toda a contá-los e recontá-los… Por sua vez, eles, felinos que são, a passear de divisão para divisão, sorrateiros, por baixo de cadeiras e cadeirões, mesas e mesinhas… Esta cena durava, durava, durava… As lágrimas já lhe invadiam os olhos, as mãos tremiam-lhe de nervosismo e ansiedade!!
Resolvia, então, atrair o “desaparecido” com comidinha: alinhava os oito pratinhos, pegava nos diferentes copos de medida de rações e… Afinal, estavam todos, até o “desaparecido”, sempre com aquele arzinho dengoso!!
Um dia, a dona não encontrava a Cinza… E lá começou tudo, mas uma vez…
“Falta-me um!!”, gritava, completamente desorientada, correndo casa e jardim num frenesim de loucos.
“Cinza, Cinzinha, onde ´tás??”
“Bsss… bsss… Bebé, linda, anda!”
Embora não conseguisse ter a mesma perspectiva que tinha em Alfragide, para apreciar melhor a cena deitei-me no sofá que se encontra na sala-cozinha. E suspirei, preparando-me para mais uma tragédia!!
A comandante entrava e saía, num desespero comovente…
Sentados, um pouco por todo o lado, estavam os nossos irmãos felinos, à excepção da Cinza, claro!, muito curiosos… O Miro e o Nino seguiam-na para todo o lado, os tontos, os gandas graxistas, fingindo participar activamente em mais uma busca pela mocinha…
A “mocinha”, por sua vez, andava no meio deles, acompanhando-os neste incessante vaivém, bem coladinha aos calcanhares da dona que, nesta fase, já se encontrava de lágrima no olho e voz embargada pelo futuro desgosto:
“Pronto! Agora nunca mais a vejo!!”
Mais uma voltinha frenética à casa e ao jardim… E mais chamamento, saindo do mais fundo da sua alma… Nada!
“Já não volta, de certeza, tão pequenina, perdida por aí, nesse mundo cheio de perigos…” (Aqui, até já eu choro!!)
E o Miro e o Nino e a pequenina tão “perdida” nesse mundo cruel, sempre no seu encalço… E a restante população de olhos arregalados de estupefacção!
Ao fim de uma hora de trânsito intenso, senta-se, derrotada, frente ao lume e prepara-se para o “abanicar”… (“Santa Natureza, a Cinza que se mostre, antes que morramos todos intoxicados!”, penso!) Nisto, a nossa matriarca humana olha em volta e vê a Cinzinha sentadinha, bem a seu lado, muito seráfica, com aquele ar cândido, a observá-la…
Bem, o reencontro foi comovente: muito beijinho, muito abracinho, muita lamúria e juras de amizade incondicional a uma felina completamente em pânico e desejando nunca ter “aparecido”!
O regresso da filha pródiga! Pródiga, não sei em quê… Quanto ao regresso… Ela nem tinha saído de casa!
A nossa dona é muito, muito estranha!! Pois, mas agora já a compreendo.
A Cinza desapareceu mesmo, aqui, no nosso novo domicílio, no dia 14 de Janeiro… Foi um pesadelo, com a dona constantemente a chamá-la, a procurá-la desenfreadamente, dias e dias e dias a fio… A meio da noite, levantava-se: “É a Cinza! Ela voltou!!” Mas não era… Nunca mais voltou!
A Maria também desapareceu… No dia 19 de Fevereiro!
Andava já constantemente doente. O único rim que funcionava, estava a falhar cada vez mais frequentemente e já custava vê-la encolhida, cheia de dores… Os internamentos tornaram-se mais longos e desta última vez, tinha voltado para casa no dia 16, depois de oito penosos dias a soro e a injectáveis…
Aproveitou uma ida da dona a Lisboa e, iludindo a vigilância de um amigo SOS, conseguiu escapar…
A dona chegou uma hora depois e foi o descalabro. Chamou, pediu, implorou… “Maria, por favor não me faças isto…” Pois…
As buscas incansáveis… As lágrimas descontroladas… Veio tudo, acho eu: a morte da “Avó”, a Cinza, o Fausto, a vida muito dura desde que para aqui viemos… Nunca a vi assim, sério!
E, claro!, o Simão adoeceu! Por stress, por saudade da Maria, porque já não a podia ouvir… ou muito simplesmente, porque tinha que ser assim! Nunca recuperou, pobrezinho! Foi adormecido no dia 7 de Março…
Aí, pensei que morria a dona também. Desinteressou-se da casa, desinteressou-se de nós… Muito simplesmente desinteressou-se. Até deixou de falar… Preocupante, muito preocupante…
Será que vêm melhores dias?

Um comentário:

Pimas disse...

Claro que vai melhorar querida Petra...Infelizmente as coisas nem sempre correm como esperamos, mas algum dia hão-de melhorar, não é? Miminhos nossos, muiiiiitos :)