segunda-feira, 26 de março de 2012

A despedida…


Sim, venho despedir-me. Está a chegar o dia… “Aquela” hora… O meu coração está cada vez mais fraquinho e já foi feito todo o reforço de medicamentos possível, penso eu. As minhas patas traseiras recusam-se a colaborar comigo e custa-me cada movimento. É cada vez mais frequente estatelar-me na tijoleira ou no empedrado do jardim e lá vem a dona, a correr, de lágrimas nos olhos, ajudar-me a levantar.
Passo muito tempo deitadinha, bem tapadinha com belas mantas polares e aquecida pela botijinha de água quente com que tanto embirrava… Ainda faz muito frio à noite e a casa não prima por ser climatizada…
Reina a paz, aparentemente…Oiço o burburinho dos pinheiros da propriedade ao lado e o crepitar da lenha na lareira. Sons que me apaziguam e permitem que caia nesta deliciosa semi-sonolência.
Ao longe, oiço a voz da dona… Ralha, para variar, com alguém dos restantes 23… Talvez com a Ammaia ou com a Missy, que passam a vida no wrestling, sei lá… Vou mesmo sentir a falta de tudo isto!
Passo a minha curta vida em revista e confesso que fui, e sou!, muito, muito feliz. Dediquei-me a esta humana de corpo e alma, sobretudo alma, já que o corpo sempre foi mais difícil de dominar. Recebi esta dedicação de volta, acho que até de forma exagerada e ansiosa…
O nosso dia-a-dia, os nossos rituais de afecto incondicional… As nossas férias na praia… Oh, as férias na praia… Quantas histórias, quantos episódios hilariantes! As minhas birras… As birras dela… Os meus aniversários e as prendas de Natal!!
Vou ter mesmo muitas saudades desta enorme, alegre e caótica família. A hora das refeições com todo aquele bulício, a dona no refilanço do costume, enquanto tropeça num e noutro e ainda noutro…
A falta que o meu Nininho, o meu grande companheiro, me fará… O Nininho, o cão mais cavalheiro que tive a oportunidade de conhecer… Já tão minado pelo reumatismo, mas sempre um gourmet! Aquele olhar quente que tanto carinho e fidelidade transmite. Tantos anos juntos!!!
E a Mishinha e o seu muito mau feitio?? Agora com os seus 12 anos, bem mais calma. Acho mesmo que mais descontraída… Bem, claro que continua a não resistir a distribuir umas belas patadas, bufadelas e rosnadelas a quem passa próximo… Misha imutável e inimitável!
O Chakinha, o nosso gordo ansioso… Agora anda melhor, pois já deve ter percebido, ao fim de todo este tempo, que aqui nada de mau lhe acontecerá e será sempre tratado como um príncipe. Os seus grandes e redondos olhos amarelo-latão deixam transparecer, já com uma certa frequência, um lampejo de infinita gozação. Tem-se integrado, felizmente, e é com estupefacção e satisfação que já o apanhámos a dormir com… a MISHA! Sem mais comentários…
O meu Binx, o gato mais dengoso e aristocrático que se passeia por aqui… Teve azar com o clima alentejano, mas de resto é feliz com esta incrível liberdade. Dedicou-se à “herança” (Gordo, Terri e Barriguinha) e passa o tempo com eles, junto à salamandra…
O Mirinho… O nosso lelito… Acalmou um pouco (mas só mesmo um pouquinho!) desde a esterilização, mas continua com a sua paixão pela pastorícia e com as suas ideias brilhantes, claro!, seguidas com entusiasmo pela sua fiel discípula e seguidora, a Ammaia… E, depois, admira-se por levar com a “Crise”!
Oh, e os “Juniores” (Mangas e manchinha), os “Metralhinhas” (Billy, Benny e Becky) e as Bratz (Pipa, Martinha, Matilde e Moїra)... Não reconheço alguns, sobretudo as últimas, pois estou completamente cega, mas sinto-as entre as minhas pernas e a tentarem partilhar a minha botijinha de água quente…
Vou ter mesmo muitas saudades das minhas quezílias com a Ammaiocas… Não me posso queixar, pois tem-me feito companhia nos meus períodos de grande exaustão e consequente prostração, períodos estes cada vez mais frequentes. E encosta-se muito, aquecendo-me com aquela corpanzil… Já nem consigo rosnar-lhe, só para mostrar quem manda… Isto apenas para não dar parte de fraca, claro!, já que me sabe imensamente bem tanto calorzinho. Chego a adormecer em paz, com uma saborosa sensação de segurança! Mas, que fique escrito, não sinto quaisquer remorsos por lhe ter feito a infância e a adolescência bastante difíceis. Eheheh…
A Zamba, o Brian, o Boy, a Missy… Não esquecerei nenhum, mesmo. Comigo irão todas as recordações dos bons momentos com tantos amigos!
O que lamento mesmo mais, é deixar a minha dona!
A apreensão invade-me. Uma enorme angústia incomoda-me de forma atroz… Quem, Qual deles, terá paciência para a ouvir noites sem fim? Quem lhe emprestará uma omoplata para chorar as suas penas?? Quem a acompanhará, passo a passo, minuto a minuto, dia a dia, drama a drama, no resto da sua vida??? E quem se rirá a bandeiras despregadas com os seus inúmeros disparates e exageros?
A Zamba, talvez, a Zamba dos olhos doces… Talvez seja ela quem vai ocupar o meu lugar na vida e no coração da dona. A Zamba que só vive e respira se a generala estiver por perto… Qualquer ida dela a Lisboa deixa esta pequena companheira em profunda depressão. Como se a dona não voltasse mais!
Oh, como já estou cheia de saudades!!!

2 comentários:

Edgar Neves disse...

Minha querida PETRA. Há momentos na vida de todos nós, em que o silêncio e a falta de palavras, traduzem o melhor dos sentimentos. E hoje apenas quero-te dizer que és a ruiva mais bonita que nós conhecemos. Muitas beijocas do MILORD, da MAGUI, do BUGAS e da malta, só para ti em especial. Para a "Generala" e toda a família um abração amigo e solidário.
Edgar Neves

Pimas disse...

Querida Petra...este diário retrata o quanto feliz foste. Tivemos o grande prazer e o privilégio de acompanhar as deliciosas histórias da tua vida. Rimos com as vossas trapalhadas, tanta história hilariante...mas também sentimos com pesar as vossas tristezas, as partidas inesperadas.
Minha querida, não preciso de te dizer que serás sempre recordada com imenso carinho. Um pedido, uma coisita singela...amiguinha dá muitos miminhos ao meu Carlotinho...