O frio chegou! Aquele calor que me estava a matar em lentos episódios deu lugar a este super fresquinho que me incentiva a estar no jardim a ladrar para o ar. Finalmente… Andamos bem dispostos e muito mimados, já com lume aceso e mantinhas polares em todas as caminhas. Bem, todos, todos, penso que é exagero, pois a nossa matriarca humana nunca anda nada feliz, ultimamente…
A anedota continua! A dona tem redobrado os cuidados com a Ammaia, devido à sua surdez, mas, mesmo assim, as coisas continuam a acontecer…
Esteve um imenso mau tempo… Ventos avassaladores, aqui, nestas terras altas, destruíram imensas coisas, nomeadamente as simpáticas placas transparentes que o senhorio colocou sobre a porta principal para a proteger da água, e quase rebentaram com a vedação que é reforçada quase mensalmente, de forma a evitar “saídas” extemporâneas do recinto. Pois, não sei bem porquê, mas há sempre algum azar…
E nós, aqueles que não vemos qualquer utilidade em fugir de casa, vamos gozando as cenas que animam o nosso quotidiano…
A Ammaia, sempre que apanha a cancela aberta, corre para a parte superior da imensa propriedade onde estamos alojados e desaparece. Sim, não sei como é possível, mas este colosso consegue mesmo deixar de ser vista!! Logicamente, a nossa humana entra imediatamente em pânico e lá vai, que nem um vento ciclónico atrás dela! Chamar não vale a pena, pois a moça, embora sinta qualquer coisa tipo vibrações, não consegue localizar e normalmente parte na direcção oposta.
Visto cá de baixo, tem imensa graça: elas encontram-se, a dona avança, a Ammaia recua e larga aos pinotes como se pretendesse que a nossa mestra corra atrás… O que acaba por acontecer, na maioria das vezes. E é apreciar: uma mancha branca gigantesca aos saltos até desaparecer na zona de mato alto, com alguns pinheiros, seguida a certa distância por uma figurinha de preto a dar às pernas e aos braços como se a sua vida disso dependesse. Desaparecem completamente!! Durante uns minutos nada acontece, o que nos deixa na expectativa: será? Será que a dona consegue??
O molosso branco ressurge, repentinamente, sempre em grandes saltos de felicidade e, atrás, bem lá atrás, vem a sargenta, esbracejando sempre, já a deitar os bofes pela boca. A cena repete-se durante um bom bocado, o suficiente para que as vizinhas mais idosas se juntem no portão a olhar embasbacadas… Elas entram no mato… Elas saem do mato… A Ammaia sempre em primeiro lugar, claro!!
A certa altura, depois de umas quantas entradas e respectivas saídas, a dona vem, soprando de fúria, por ali abaixo, até casa. Transpira que eu sei lá e tem lama um pouco por todo o seu ser. Lama? E folhas, e galhos, e sei lá que mais…
Entra furiosamente em casa e sai da mesma forma, mas com um saco de “presentes” na mão. Corre pelo campo até à zona onde se encontra a donzela de branco e abana vigorosamente o dito. A outra olha, muito desinteressada, e volta a desaparecer… A dona galopa atrás dela e nós ganimos pela injustiça toda: então, e nós? Não temos direito a prémio?? Pelo nosso bom comportamento e solidariedade??
Passa-se um bocado, um grande bocado sem que haja um pequenino sinal de vida, até que lá avistamos a almiranta, muito devagarinho, e a Ammaia, sempre desconfiada… É a história do Polegarzinho, sem dúvida! A ver se a consegue atrair até casa, a dona vai deixando cair um pequeno ossinho de biscoito de cada vez, e a outra, muito alerta, vai comendo… Parece mesmo que vai resultar, mas quando já estão bem próximas da cancela, dá uma travadinha ao monstro branco e lá vai ela, campo fora, desaparecendo naquela já muito referida zona! Sempre aos pulos…
A dona passa-se… Nervosíssima, e para nos calar, dá um biscoito a cada um, e volta a sair muito apreensiva, pois, em breve, terá que regressar à escola…
Arrepende-se, volta atrás e : “Zamba, anda!”. A injustiça é cada vez maior!! Ficamos no jardim, feitos monos e a Zamba vai passear???
“Zamba, busc`Ammaia!”, ordena, embora já não consiga pronunciar bem as palavras. A nossa companheira cor de mel, mete o nariz colado ao solo e corre, corre em zig-zag, campo acima e desaparece no mesmo local… Passado um pouquinho regressa a toda a velocidade com a Ammaia, em estado de pura loucura, no seu encalço… A dona também corre e dá a impressão que é desta! Já quase, quase em casa, cancela aberta, marechala e Zamba muito ofegantes, a moça perde o interesse e volta sabe-se lá para onde que lhe causa tanta alegria…
A hora de almoço está a chegar ao fim e alguém precisa voltar para o trabalho. E é o que a dona faz, de coração apertado e ombros descaídos, tal a frustração. Passará a tarde em grande aflição, se bem a conheço.
Às cinco da tarde, pontualmente, ouvimos o nosso carro a estacionar e os passos apressados da dona. O alívio está bem patente no seu rosto e postura: a Ammaia encontra-se encostada à porta, desconsoladíssima, dando aqueles gritos agudos lancinantes, como que a contar a toda a vizinhança que foi ignominiosamente abandonada!!! Mais uma vergonha, enfim!!
A da semana passada, foi bem mais grave!!
A Ammaia fugiu mais uma vez, mas desta em muito más companhias: Miro e Rufus! Rapidamente a ensinaram a atravessar para a propriedade ao lado daquela em que vivemos. Ao longe, a dona constatou, horrorizada, que o portão da dita se encontrava escancarado e correu para lá. Mau, muito mau o que se adivinhava!!
O Rufus e o Miro, assim que viram a generala em corrida furiosa, fugiram cada um para seu lado…
O Rufus na direcção mais errada… com a Ammaia atrás! Rumo à estrada que vai para Espanha e onde quase todos os veículos, sobretudo os pesados, circulam, acelerando até à mais absoluta ilegalidade…
E para a estrada foram os três: Rufi na frente, bisonte branco a curta distância e em grandes pulos de suprema felicidade e a generala, mais velha, pesada e cansada, em último, sempre a perder terreno, gritando e esbracejando…
Vem um camião e a dona faz sinais até que desiste e desata a correr pelo meio da estrada atrás da Ammaia. A Ammaia, entretanto, e mesmo em cima duma curva traiçoeira, estaciona ocupando parte das duas faixas de rodagem… O camião que persegue a dona, abranda… A estrada está molhada da chuva… Carros buzinam, penso que de preocupação… Em sentido contrário, vem outro camião… Ammaia continua no mesmo sítio… A dona também, mas grita com toda a alma… Ela não dá por nada de nada, toda contente a sentir o asfalto… Um vizinho corre para ajudar… A dona tapa os olhos…
Acabou bem, mesmo assim: no último momento, pelo menos foi a impressão que deu, a parva da cadela correu para a berma, pois apeteceu-lhe urinar, a dona conseguiu deitar-lhe mão à coleira e pô-la em segurança!
Moral da história: eram umas cinco horas da tarde, mas o Miro e o Rufi só voltaram às dez da noite, muito rastejantes e submissos!! E sem jantar!!
Enfim, no dia seguinte esta monstruosa criatura “comeu” 55€, em notas!!
Será que a dona vai conseguir preservar a sua (e a nossa por acréscimo…) sanidade mental???
Um comentário:
Ainda bem que a sanidade mental do pessoal está na maior.
Se eu estivesse por perto, vocês haviam de ver o que era farra. O que vale ao meu dono, é a coleira peitoral, com quem eu tenho uma relação amor/ódio.
Beijocas da vossa amiga MAGUI e a Generala que ponha mais lenha na lareira. Tudo de bom para Marvão.
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