sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Ammaia (parte 3)


E voltei!! Sim, voltei porque acho que tenho que acabar a minha perspectiva da Ammaia o mais depressa que posso para me dedicar a outras “aventuras bem mais loucas!
Continuo a afirmar que esta minha companheira de casa é uma enorme seca! E adoro, divirto-me imenso a mostrar-lhe todo o meu desprezo.
Sempre lhe rosnei, mesmo em pequenina, quando se aproximava de mim ou do que considero ser o meu espaço. E ela, pobrezita, encolhia-se e acabava por se retirar para a sua caminha ou almofada mais próxima. E o gozo que dava vê-la tentar trepar para a cama da dona, onde normalmente me encontrava, e cair?? E chorava, chorava… Eheheh… Pois, mas agora nem precisa de saltar ou trepar: só tem que levantar as patas e pronto!, já está refasteladíssima.
Volta e meia, dá-lhe uma de “amor” e vem ter comigo, dando-me beijinhos e mais beijinhos. Eu ponho o meu ar mais majestático e até permito mais esta prova de vassalagem… Se a almiranta não estiver a ver, claro! Porque se, por acaso, a minha guru andar por perto, dou logo uma rosnadela imponente seguida de uma tentativa de morder, o mais real possível e sigo o meu caminho. É divertidíssimo ver como fica desorientada.
À hora das refeições, estaciono paciente e expectantemente frente ao meu prato… E espero sem tocar num bocadinho que seja. Eheheh… O monstro devora tudo quanto se encontra no pratalhão que lhe é distribuído, sem qualquer vestígio de boas maneiras. E eu continuo à espera, sempre muito atenta à comidinha que repousa, apetitosa… A Ammaia levanta finalmente a cabeça e olha em volta. Huummm, vê a minha porção intacta… E avança… E eu vou aproximando o meu focinho do reluzente recipiente… Até que a moça abusa e tenta roubar-me descaradamente! O meu rosnar, inicialmente baixo, aumenta de tom até que finjo que a vou atacar, arreganhando o que me sobra de dentes e fazendo uma investida rápida, Eheheh… Nunca falha!! E até me abre o apetite, todo este teatro, comendo com gosto, lambendo o prato para que não reste uma micromigalhinha que seja!!!
Confesso que, no dia em que ela se entreteve a devorar a embalagem de Denosyl, o protector hepático do nosso idiopático nº 1, o Mirinho, fiquei seriamente apreensiva. Teria aí uns 4 ou 5 mesinhos… Foram só cerca de 20 comprimidos, a literatura inclusa e mais uns 2/3 da embalagem de cartão! Vá lá que a parte que não engoliu tinha o nome do medicamento para a dona poder orientar-se.
A nossa sargenta chegou, como é hábito, às 17.00 horas. Ainda vivíamos na casa do “Avô”. Mal entrou na sala da televisão, ficou gelada ante a visão de bocadinhos avermelhados espalhados pelo chão, juntamente com fragmentos variados de papel e cartão. Que teria acontecido?
Ao ver o pequeno hipopótamo de borracha vermelha despedaçado, ficou temporariamente mais tranquila… Temporariamente, foi o tempo de atravessar a sala até ao quarto de dormir… O armário de parede encontrava-se de portas escancaradas e a caixa dos medicamentos sem tampa… Acho que a mulher cambaleou de horror!! Foi quando descobriu o bocadinho que dizia “Denosyl”…
Conseguindo arranjar forças, alcançou o telefone e ligou para a doutora. A senhora preveniu-a que a Ammaia iria ter diarreia e má disposição, mas que não era grave, para a nossa matriarca estar descansada.
Ninguém previa o que se seguiu depois!! Má disposição?? Diarreia??? Nãâããooo… Às 21.00 horas, a mocinha largou a vomitar, e de kilo!, ao mesmo tempo que assumiu um andar cambaleante, atirando-se contra portas e paredes e acabando estendida no chão a contorcer-se de dor e dando verdadeiros urros arrepiantes!!
Andávamos todos atrás dela, em procissão, horrorizados e solidários. Nem eu fiquei indiferente com tal sofrimento e até tentei animá-la. Nada conseguia travar aquele frenesim de agonia em “macro”!
À meia-noite, e depois de muitas conversas com a veterinária, o tio Miguel chegou e saíram os três, a Ammaia em braços…
Voltaram tarde, bastante tarde. Parece que a cachorrinha desidratou em massa e teve que ser “compensada”. Não sei o que lhe deram, mas gradualmente foi acalmando e acabou por adormecer na nossa cama da dona, pobrezinha. Aliás, dormiu também todo o dia seguinte… Um descanso!!
Verdade seja dita, eu, em cachorra, fiz montanhas de asneiras, sendo a mais famosa aquela de roer as colheres de pau e engolir os pedacinhos de madeira, ao mesmo tempo que destruía os telefones de porta (4 numa única semana!) e digeria todas aquelas pecinhas brilhantes… Ia morrendo… A dona ainda guarda o Raio-X, onde se pode ver o meu intestino bastante inchado e cheio de pontinhos brancos… É que já fui cachorrinha, numa outra era qualquer!!
Aqui, a minha companheira de porte muito pouco económico fez uns quantos estragos em grande, mas agora anda um pouco mais calma, embora esteja sempre a “ruminar”, enquanto olha para o infinito. Vai fazer dois anos, mas parece maior, a cada dia que passa. E aquele olhar de suprema infelicidade não desaparece. Agora descobriram que é surda. O tal pigmento branco… Terá que fazer mais uns testes, mas que a maioria das vezes não dá fé de nada, é bem verdade. Bem que a dona dizia que ela era autista…
E eu? Serei 0 quê?? Uma santa, só pode!!!

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