terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Ammaia e a dona...


O frio chegou! Aquele calor que me estava a matar em lentos episódios deu lugar a este super fresquinho que me incentiva a estar no jardim a ladrar para o ar. Finalmente… Andamos bem dispostos e muito mimados, já com lume aceso e mantinhas polares em todas as caminhas. Bem, todos, todos, penso que é exagero, pois a nossa matriarca humana nunca anda nada feliz, ultimamente…
A anedota continua! A dona tem redobrado os cuidados com a Ammaia, devido à sua surdez, mas, mesmo assim, as coisas continuam a acontecer…
Esteve um imenso mau tempo… Ventos avassaladores, aqui, nestas terras altas, destruíram imensas coisas, nomeadamente as simpáticas placas transparentes que o senhorio colocou sobre a porta principal para a proteger da água, e quase rebentaram com a vedação que é reforçada quase mensalmente, de forma a evitar “saídas” extemporâneas do recinto. Pois, não sei bem porquê, mas há sempre algum azar…
E nós, aqueles que não vemos qualquer utilidade em fugir de casa, vamos gozando as cenas que animam o nosso quotidiano…
A Ammaia, sempre que apanha a cancela aberta, corre para a parte superior da imensa propriedade onde estamos alojados e desaparece. Sim, não sei como é possível, mas este colosso consegue mesmo deixar de ser vista!! Logicamente, a nossa humana entra imediatamente em pânico e lá vai, que nem um vento ciclónico atrás dela! Chamar não vale a pena, pois a moça, embora sinta qualquer coisa tipo vibrações, não consegue localizar e normalmente parte na direcção oposta.
Visto cá de baixo, tem imensa graça: elas encontram-se, a dona avança, a Ammaia recua e larga aos pinotes como se pretendesse que a nossa mestra corra atrás… O que acaba por acontecer, na maioria das vezes. E é apreciar: uma mancha branca gigantesca aos saltos até desaparecer na zona de mato alto, com alguns pinheiros, seguida a certa distância por uma figurinha de preto a dar às pernas e aos braços como se a sua vida disso dependesse. Desaparecem completamente!! Durante uns minutos nada acontece, o que nos deixa na expectativa: será? Será que a dona consegue??
O molosso branco ressurge, repentinamente, sempre em grandes saltos de felicidade e, atrás, bem lá atrás, vem a sargenta, esbracejando sempre, já a deitar os bofes pela boca. A cena repete-se durante um bom bocado, o suficiente para que as vizinhas mais idosas se juntem no portão a olhar embasbacadas… Elas entram no mato… Elas saem do mato… A Ammaia sempre em primeiro lugar, claro!!
A certa altura, depois de umas quantas entradas e respectivas saídas, a dona vem, soprando de fúria, por ali abaixo, até casa. Transpira que eu sei lá e tem lama um pouco por todo o seu ser. Lama? E folhas, e galhos, e sei lá que mais…
Entra furiosamente em casa e sai da mesma forma, mas com um saco de “presentes” na mão. Corre pelo campo até à zona onde se encontra a donzela de branco e abana vigorosamente o dito. A outra olha, muito desinteressada, e volta a desaparecer… A dona galopa atrás dela e nós ganimos pela injustiça toda: então, e nós? Não temos direito a prémio?? Pelo nosso bom comportamento e solidariedade??
Passa-se um bocado, um grande bocado sem que haja um pequenino sinal de vida, até que lá avistamos a almiranta, muito devagarinho, e a Ammaia, sempre desconfiada… É a história do Polegarzinho, sem dúvida! A ver se a consegue atrair até casa, a dona vai deixando cair um pequeno ossinho de biscoito de cada vez, e a outra, muito alerta, vai comendo… Parece mesmo que vai resultar, mas quando já estão bem próximas da cancela, dá uma travadinha ao monstro branco e lá vai ela, campo fora, desaparecendo naquela já muito referida zona! Sempre aos pulos…
A dona passa-se… Nervosíssima, e para nos calar, dá um biscoito a cada um, e volta a sair muito apreensiva, pois, em breve, terá que regressar à escola…
Arrepende-se, volta atrás e : “Zamba, anda!”. A injustiça é cada vez maior!! Ficamos no jardim, feitos monos e a Zamba vai passear???
“Zamba, busc`Ammaia!”, ordena, embora já não consiga pronunciar bem as palavras. A nossa companheira cor de mel, mete o nariz colado ao solo e corre, corre em zig-zag, campo acima e desaparece no mesmo local… Passado um pouquinho regressa a toda a velocidade com a Ammaia, em estado de pura loucura, no seu encalço… A dona também corre e dá a impressão que é desta! Já quase, quase em casa, cancela aberta, marechala e Zamba muito ofegantes, a moça perde o interesse e volta sabe-se lá para onde que lhe causa tanta alegria…
A hora de almoço está a chegar ao fim e alguém precisa voltar para o trabalho. E é o que a dona faz, de coração apertado e ombros descaídos, tal a frustração. Passará a tarde em grande aflição, se bem a conheço.
Às cinco da tarde, pontualmente, ouvimos o nosso carro a estacionar e os passos apressados da dona. O alívio está bem patente no seu rosto e postura: a Ammaia encontra-se encostada à porta, desconsoladíssima, dando aqueles gritos agudos lancinantes, como que a contar a toda a vizinhança que foi ignominiosamente abandonada!!! Mais uma vergonha, enfim!!
A da semana passada, foi bem mais grave!!
A Ammaia fugiu mais uma vez, mas desta em muito más companhias: Miro e Rufus! Rapidamente a ensinaram a atravessar para a propriedade ao lado daquela em que vivemos. Ao longe, a dona constatou, horrorizada, que o portão da dita se encontrava escancarado e correu para lá. Mau, muito mau o que se adivinhava!!
O Rufus e o Miro, assim que viram a generala em corrida furiosa, fugiram cada um para seu lado…
O Rufus na direcção mais errada… com a Ammaia atrás! Rumo à estrada que vai para Espanha e onde quase todos os veículos, sobretudo os pesados, circulam, acelerando até à mais absoluta ilegalidade…
E para a estrada foram os três: Rufi na frente, bisonte branco a curta distância e em grandes pulos de suprema felicidade e a generala, mais velha, pesada e cansada, em último, sempre a perder terreno, gritando e esbracejando…
Vem um camião e a dona faz sinais até que desiste e desata a correr pelo meio da estrada atrás da Ammaia. A Ammaia, entretanto, e mesmo em cima duma curva traiçoeira, estaciona ocupando parte das duas faixas de rodagem… O camião que persegue a dona, abranda… A estrada está molhada da chuva… Carros buzinam, penso que de preocupação… Em sentido contrário, vem outro camião… Ammaia continua no mesmo sítio… A dona também, mas grita com toda a alma… Ela não dá por nada de nada, toda contente a sentir o asfalto… Um vizinho corre para ajudar… A dona tapa os olhos…
Acabou bem, mesmo assim: no último momento, pelo menos foi a impressão que deu, a parva da cadela correu para a berma, pois apeteceu-lhe urinar, a dona conseguiu deitar-lhe mão à coleira e pô-la em segurança!
Moral da história: eram umas cinco horas da tarde, mas o Miro e o Rufi só voltaram às dez da noite, muito rastejantes e submissos!! E sem jantar!!
Enfim, no dia seguinte esta monstruosa criatura “comeu” 55€, em notas!!
Será que a dona vai conseguir preservar a sua (e a nossa por acréscimo…) sanidade mental???

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Ammaia (parte 3)


E voltei!! Sim, voltei porque acho que tenho que acabar a minha perspectiva da Ammaia o mais depressa que posso para me dedicar a outras “aventuras bem mais loucas!
Continuo a afirmar que esta minha companheira de casa é uma enorme seca! E adoro, divirto-me imenso a mostrar-lhe todo o meu desprezo.
Sempre lhe rosnei, mesmo em pequenina, quando se aproximava de mim ou do que considero ser o meu espaço. E ela, pobrezita, encolhia-se e acabava por se retirar para a sua caminha ou almofada mais próxima. E o gozo que dava vê-la tentar trepar para a cama da dona, onde normalmente me encontrava, e cair?? E chorava, chorava… Eheheh… Pois, mas agora nem precisa de saltar ou trepar: só tem que levantar as patas e pronto!, já está refasteladíssima.
Volta e meia, dá-lhe uma de “amor” e vem ter comigo, dando-me beijinhos e mais beijinhos. Eu ponho o meu ar mais majestático e até permito mais esta prova de vassalagem… Se a almiranta não estiver a ver, claro! Porque se, por acaso, a minha guru andar por perto, dou logo uma rosnadela imponente seguida de uma tentativa de morder, o mais real possível e sigo o meu caminho. É divertidíssimo ver como fica desorientada.
À hora das refeições, estaciono paciente e expectantemente frente ao meu prato… E espero sem tocar num bocadinho que seja. Eheheh… O monstro devora tudo quanto se encontra no pratalhão que lhe é distribuído, sem qualquer vestígio de boas maneiras. E eu continuo à espera, sempre muito atenta à comidinha que repousa, apetitosa… A Ammaia levanta finalmente a cabeça e olha em volta. Huummm, vê a minha porção intacta… E avança… E eu vou aproximando o meu focinho do reluzente recipiente… Até que a moça abusa e tenta roubar-me descaradamente! O meu rosnar, inicialmente baixo, aumenta de tom até que finjo que a vou atacar, arreganhando o que me sobra de dentes e fazendo uma investida rápida, Eheheh… Nunca falha!! E até me abre o apetite, todo este teatro, comendo com gosto, lambendo o prato para que não reste uma micromigalhinha que seja!!!
Confesso que, no dia em que ela se entreteve a devorar a embalagem de Denosyl, o protector hepático do nosso idiopático nº 1, o Mirinho, fiquei seriamente apreensiva. Teria aí uns 4 ou 5 mesinhos… Foram só cerca de 20 comprimidos, a literatura inclusa e mais uns 2/3 da embalagem de cartão! Vá lá que a parte que não engoliu tinha o nome do medicamento para a dona poder orientar-se.
A nossa sargenta chegou, como é hábito, às 17.00 horas. Ainda vivíamos na casa do “Avô”. Mal entrou na sala da televisão, ficou gelada ante a visão de bocadinhos avermelhados espalhados pelo chão, juntamente com fragmentos variados de papel e cartão. Que teria acontecido?
Ao ver o pequeno hipopótamo de borracha vermelha despedaçado, ficou temporariamente mais tranquila… Temporariamente, foi o tempo de atravessar a sala até ao quarto de dormir… O armário de parede encontrava-se de portas escancaradas e a caixa dos medicamentos sem tampa… Acho que a mulher cambaleou de horror!! Foi quando descobriu o bocadinho que dizia “Denosyl”…
Conseguindo arranjar forças, alcançou o telefone e ligou para a doutora. A senhora preveniu-a que a Ammaia iria ter diarreia e má disposição, mas que não era grave, para a nossa matriarca estar descansada.
Ninguém previa o que se seguiu depois!! Má disposição?? Diarreia??? Nãâããooo… Às 21.00 horas, a mocinha largou a vomitar, e de kilo!, ao mesmo tempo que assumiu um andar cambaleante, atirando-se contra portas e paredes e acabando estendida no chão a contorcer-se de dor e dando verdadeiros urros arrepiantes!!
Andávamos todos atrás dela, em procissão, horrorizados e solidários. Nem eu fiquei indiferente com tal sofrimento e até tentei animá-la. Nada conseguia travar aquele frenesim de agonia em “macro”!
À meia-noite, e depois de muitas conversas com a veterinária, o tio Miguel chegou e saíram os três, a Ammaia em braços…
Voltaram tarde, bastante tarde. Parece que a cachorrinha desidratou em massa e teve que ser “compensada”. Não sei o que lhe deram, mas gradualmente foi acalmando e acabou por adormecer na nossa cama da dona, pobrezinha. Aliás, dormiu também todo o dia seguinte… Um descanso!!
Verdade seja dita, eu, em cachorra, fiz montanhas de asneiras, sendo a mais famosa aquela de roer as colheres de pau e engolir os pedacinhos de madeira, ao mesmo tempo que destruía os telefones de porta (4 numa única semana!) e digeria todas aquelas pecinhas brilhantes… Ia morrendo… A dona ainda guarda o Raio-X, onde se pode ver o meu intestino bastante inchado e cheio de pontinhos brancos… É que já fui cachorrinha, numa outra era qualquer!!
Aqui, a minha companheira de porte muito pouco económico fez uns quantos estragos em grande, mas agora anda um pouco mais calma, embora esteja sempre a “ruminar”, enquanto olha para o infinito. Vai fazer dois anos, mas parece maior, a cada dia que passa. E aquele olhar de suprema infelicidade não desaparece. Agora descobriram que é surda. O tal pigmento branco… Terá que fazer mais uns testes, mas que a maioria das vezes não dá fé de nada, é bem verdade. Bem que a dona dizia que ela era autista…
E eu? Serei 0 quê?? Uma santa, só pode!!!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Algumas novidades...


Oh, a vida continua muito difícil e estranha. O “Avô” morreu no dia 11 de Julho… Pensámos que era mesmo o fim da dona e o nosso, claro! Passou uma data de tempo sem falar, não comia, atrasava-se com as nossas refeições e, pior: não queria sair da cama!!! Que ano pavoroso, sinceramente!
O Verão não correu como das outras vezes, não. Bem que ansiávamos pelas idas à barragem e respectivos petiscos, mas nada!! Nem os novos habitantes da casa a faziam querer viver…
Sim, apareceram mais uma data de “inquilinos” para esta, já de si pequena, habitação. O Rufus, um cãozinho preto de pêlo cerdoso, veio no dia 10 de Abril, muito cabisbaixo, rosnento e desconfiado. Os “metralhinhas”, três pequenos gatinhos, muito raquíticos, em hipotermia, vieram no dia 21 de Abril, quinta-feira santa. Foi um achado da Ammaia que, na altura, andava com a mania dos sacos de lixo e encontrou um no rio Sever e não o largava. Claro, deu logo que havia “prenda”, a maluca!! São o Billy, o Benny e a Becky. Entretanto, e nas vésperas do desaparecimento do pai da generala, outra aquisição: a Missy!! Uma podengosa que parece filha da Zamba, com cerca de três meses e destino marcado para abate no Canil de Portalegre, chorosa, desgostosa mas com imensa energia…
A situação não ficou por aqui: “herdámos” o Brian, um boxer todo babão de quase cinco anos e mais quatro gatos, do “Avô”. Como se não bastasse, veio a Pipa, a Martinha e a Matilde, três simpáticas felinas, sendo as duas últimas a novidade do fim do mês de Setembro.
A horta conseguiu tirar a dona da alarmante letargia que não a deixava viver. Todas as manhãs, por volta das seis horas, lá ia ele com as suas galochas, voltando às 10.30 muito porquinha, terra a cair-lhe de todo o lado, incluindo cabelo, muito bronzeada, com caixas de tomate, beringelas, courgettes e feijão verde mas nada alegre. Mas já se mexia um pouco, o que já era uma esperança.
E fiz 14 anos!!! Afinal cheguei a mais um aniversário e benzinho de saúde. A dona, o tio Miguel e a tia Fernanda fizeram um almocinho muito especial, e só para mim: picanha assada no forno, com batatinhas e cebolinhas da nossa horta e chutney de tomate e maçã de chorar por mais. A entrada foi courgettes gratinadas com queijinho… Foi demais!!
Os outros não foram convidados desta vez, pois a generala decidiu que o dia era só, só meu. Dispensava era aquela cantoria parva dos “parabéns à Petrinha”, mas com as fatias de carne que me couberam, até aguentei muito bem e sempre bem disposta. Mas cansei-me imenso! A ida até Marvão para o almoço e tanto tempo fora de casa…