terça-feira, 28 de junho de 2011

A Ammaia (parte 2)


Bem, voltei! O calor está aí e a generala já não me deixa andar na rua à vontade, justificando-se com o meu coração. Pois… Desculpas!
Estou farta de gozar: temos mais um elemento idiopático cá em casa!! E quem é? Quem é? A almiranta!!! Deu-lhe para isso, agora… Eheheh… Tem estado com humor de “humano”, que ninguém a atura, e resolveu ir ao médico. Eheheh… Está tipo Chakinha, com cistite idiopática!!! Não é demais???
Ora, o melhor mesmo é retomar a saga chamada “Ammaia”, porque se a patroa sonha que estou a divertir-me à custa dela, acabam-se todos os passeios, de certeza!!
Ora a mocinha foi crescendo, crescendo, crescendo… Tornou-se um monstro musculado, diria mesmo, blindado. Continua com aquele olhar muito infeliz, totalmente miserável, embora não se entenda porquê. Mesmo quando faz asneira, põe aquele “arzinho” de suprema infelicidade e esconde-se debaixo da peça de mobiliário mais próxima, o que ainda agrava mais a sua já péssima situação, pois acontecem cenas como mesas viradas e seus bibelots partidos, cadeiras voadoras e cabeçadas estrondosas.
Este olhar infeliz, muito, muito infeliz, desaparece com o cair da noite… Porque será?
Quando nos sentimos prontos para descansar nas nossas caminhas, ela decide entrar em grande actividade! E lá começa mais um delírio…
Pede para ir ao jardim, a dona abre-lhe a porta porque já não aguenta mais uma grande cavalgada pela casa, com tudo a abanar, e ela sai que nem um torpedo!
Em casa do “Avô”, em Marvão, a coisa era complicada. Eu explico:
O tempo ia passando e nada de Ammaia… E a generala quer deitar-se… E nós idem… E a Ammaia nada, na mesma! A dona chama… E, mais uma vez, nada! Exasperada, decidia ir em busca da desaparecida.
O jardim não tem luz na parte de cima, mas se procurássemos atentamente, conseguíamos vislumbrar uma mancha gigante branca deslocando-se em grande velocidade… De repente, qual filme de terror, do nada muito escuro surgia um monstro branco de olhar alucinado, raiado de sangue, e um enorme barrote de madeira atravessado na boca: a Ammaia encontrava-se em “fitness”!!
A generala, impaciente porque já era muito tarde, avançava… Ela recuava com o dito trambolho… A nossa mestra tentava encurralá-la, mas ela esquivava-se, nunca largando o monstruoso artefacto… E corre… E o trambolho era tão grande que batia em duas árvores, sendo a jovem projectada para trás com a violência do impacto… A cena prolongava-se durante um bom bocado. Até a dona se chatear muito a sério…
Enfim, parecem chegar a um acordo estratégico, mas muito pouco ortodoxo: a nossa humana corre e a safadinha persegue-a… “Alvo em movimento! Alvo em movimento!!”, é o que devia pensar. Mais uma corrida, desta feita até á porta de casa, e entravam as duas esfalfadas, uma irradiando felicidade, a outra da maneira do costume, ou seja, fervendo de fúria e assumindo lindas cores a condizer!! Eheheheh… Gand´animação!!!
E a Ammaia continuou a crescer, a crescer (e ainda cresce!) e com este descalabro de crescimento físico, também cresceu o seu amor pelo Mirinho!
O Mirinho que, coitado, neste momento não chega a um terço do tamanho dela… Os dois passam, normalmente, os dias em grandes confrontos físicos, afinfados nas bochechas um do outro, a correr em grande despique pela casa, o que , sinceramente, não dá muito jeito… E a dona, como não podia deixar de ser, passa-se completamente! E ameaça… Agora mudou um pouco o discurso, pois aqui não há nem canil, nem gatil, eheheh…
“Vocês querem que me vá embora, querem??? Parece!!! E depois quem vos dá comidinha? Sim, quem, quem?”
Acho que não vale a pena relatar tudo: passa pela hipótese de se mudar para uma tenda na quinta, pelo nosso abandono nesta casa perdida entre as montanhas, onde as trovoadas se sentem com maior intensidade… Nada que não seja o normal! E a correria, os estrondos provocados por objectos a cair continuam… E a nossa guru, prefere ir tomar uma bebida a Espanha!
Pessoalmente, acho a Ammaia uma seca! Não percebo porque é que a dona a quer, honestamente. Ocupa um espaço imenso… O ressonar dela é tão sonoro que não deixa ninguém dormir… Come que nem um Rafeiro do Alentejo! Pior, rumina!!! Rumina tudo!! Papel, canetas, edredons, mantas, arbustos, lenha, brasas, esfregões…
Continuarei noutro episódio! Afinal, esta minha “familiar” é tão grande, que bem merece uns três ou quatro episódios!! Fico muito cansada só de pensar em todas as desventuras desde que veio viver connosco…

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Ammaia (parte 1)


A Ammaia chegou no dia 6 de Fevereiro… De proveniência desconhecida… Uma bola de carne e pêlo, fedorenta, chorosa e de cor parda… Sobretudo, muito chorosa e fedorenta… Acho que preferia os porcos e as galinhas com quem, com certeza, confraternizava…
Tinha cerca de mês e meio e um daqueles olhares miseráveis, tristes, do estilo:”Sou montanhas de infeliz!”
Foi gasta uma embalagem inteira de toalhetes, até conseguirmos verificar que, afinal, era branca, com uma mancha preta junto à cauda e outra no flanco direito.
É uma Rafeira do Alentejo, dizem os entendidos…
As regras criadas pela dona, ditaram que fosse logo ao vet, onde foi desparasitada interna e externamente, e pesada: 5.100Kg de cadela!!! E só com mês e meio…
Rosnei apreensiva: “Não, isto não vai correr nada bem!”
Arranjou, no meio de todo aquele desamparo, uma amiguinha: a Cinza. A nossa Cinza acolheu-a sem qualquer reserva, deitando-se com ela como se compreendesse e solidariezasse com o desgosto que esta cria de tamanho gigante sentia. Sempre que era ostracizada ou escorraçada pelos restantes membros desta cada vez mais numerosa família, a pobre da rafeirinha lá a procurava para se deitar mais consolada. E a Cinza prestava-se imediatamente para a reconfortar.
O segundo amigo a aproximar-se foi o nosso “lelito”. O Miro, com a mania da “paternidade”, bem depressa se tornou o seu leader espiritual… Para o bem e para o mal! Sobretudo, para o mal…
O monte de pêlo já definitivamente branco deixou de chorar para correr desajeitadamente atrás deste que se iria tornar o seu melhor amigo.
Inicialmente, a dona, a conselho do vet, alternava a ração júnior com papas Cerelac… Sim, durou uns três dias a boa da dieta. A jovem lá ia comendo a ração, mastigando vagarosamente, enquanto olhava em volta, apática de todo. Chegava mesmo a esquecer-se que tinha a boca cheia pelo que levava um ou outro safanão para se lembrar de continuar a mastigar.
A história das papas Cerelac era mais complicada: sentava-se frente ao prato, olhando distraidamente para qualquer ponto distante, à espera que a generala lhas desse. À colher!!! Isso aconteceu no primeiro dia… E no segundo… Ao terceiro acabaram-se as papas com um vigoroso: “Era só o que me faltava!! Agora a dar comida à colher a um cão…”
Apesar de não haver mais Cerelac, a rapariga começou a desenvolver-se e muito! Diria mesmo que demais!! O Miro, seu guru, tornou-se igualmente, a sua vítima favorita. Dias e grande parte das noites eram passados em grandes treinos de wrestling. Muito, muito cansativo para os restantes familiares!
Foi-se fazendo uma força bruta, indo tudo à sua frente nem que fosse aos encontrões: “Mesas, armários, árvores, dona… saiam da frente que não me desvio!”
Bem, também estou a exagerar um pouco, pois, inicialmente, nem se mexia muito, já que era uma grande canseira. Comia sentadinha, sempre muito desconcentrada… À medida que foi crescendo, o cansaço era tanto que passou a comer deitada, focinho bem enterrado no prato. Sei lá, devia dar mais jeito, não sei…
Tinha pequenos períodos de grande actividade aí até aos sete meses. Nessas alturas, dava-lhe a “travadinha” de tal forma que não havia quem a aguentasse. Até o Simãozinho, o nosso “coraçãozinho de ouro” se levantava nas patas traseiras e a esbofeteava com toda a alma da sua patinha aleijadinha…
O Nininho e eu, ambos já com uma idade respeitável, ficávamos tão irritados, tão irritados, que nos esfalfávamos a rosnar e a ladrar, acabando por nos refugiarmos, já sem voz, na cama da dona, como se fossemos náufragos numa pequena ilha. E defendíamos este domínio “insular” com unhas e dentes, das investidas da ainda muito jovem mamute branca. E a Ammaia chorava, chorava, rosnava e ladrava terminando com lancinantes gritos selvagens, furiosa, enquanto tentava saltar para perto de nós… Acabava sempre por cair desamparada e, finalmente derrotada, lá se deitava numa das muitas caminhas, triste, triste, triste… E nós sorríamos… Sorríamos com imenso prazer!!! Eheheh…
E já estou cansada de tanto falar… A minha idade já não permite que me alargue por muito tempo, pelo que continuarei a odisseia com a Ammaia, em breve!
rascunho

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O "Falta-me um!!!"


Voltámos para nossa casa…
Bem, não deve ser a mesma casa de Alfragide, mas os móveis, os caloríferos e seus odores são os mesmos!
É uma casinha pequena, como aquela em que vivi tantos anos, só que desta vez tem lareira e um belo terreno para estarmos à vontade! E não tem escadas!!! Não, não é Alfragide! Hummm, e Marvão, também não…
Já percebi que ainda não é a nossa quinta, pois não sinto o poço, não oiço o ribeiro e não tem aquele cheiro almiscarado das raposas… Mas o Boy veio viver connosco!
A estrada para Espanha passa perto, mas a dona mandou vedar uma parte do terreno para evitar acidentes… O pior são os nossos amigos felinos… Têm artes, como diz a almiranta! E as cenas do “Falta-me um!!” repetem-se!!
Que pancada, a da nossa dona!
Lembro-me de um episódio em particular, estávamos ainda na casa do “Avô”, em Marvão, e era Inverno. Eu conto!!
A casa, como já referi anteriormente, é enorme e se bem que só ocupássemos o andar de cima, o seu terraço e o imenso jardim, sempre eram 6 divisões, mais a sala-cozinha e as duas casas de banho. À noitinha, para descansar em paz, a nossa tutora punha-se a contar os gatos… Só para ver se estavam todos, claro.
E começava na cozinha… Contava três… No hall, mais um… Na sala da televisão, mais dois… A Misha, nas escadas… E…
“Falta-me um!!!”, gritava, desesperada.
Recomeçava a contagem… Dois no quarto principal… Três na sala da TV… Dois na sala de jantar… E…
“Falta-me um!!”, lamuriava. “Binxas, onde ´tás?”
É preciso ter muita paciência para o que se seguia: ela a andar pela casa toda a contá-los e recontá-los… Por sua vez, eles, felinos que são, a passear de divisão para divisão, sorrateiros, por baixo de cadeiras e cadeirões, mesas e mesinhas… Esta cena durava, durava, durava… As lágrimas já lhe invadiam os olhos, as mãos tremiam-lhe de nervosismo e ansiedade!!
Resolvia, então, atrair o “desaparecido” com comidinha: alinhava os oito pratinhos, pegava nos diferentes copos de medida de rações e… Afinal, estavam todos, até o “desaparecido”, sempre com aquele arzinho dengoso!!
Um dia, a dona não encontrava a Cinza… E lá começou tudo, mas uma vez…
“Falta-me um!!”, gritava, completamente desorientada, correndo casa e jardim num frenesim de loucos.
“Cinza, Cinzinha, onde ´tás??”
“Bsss… bsss… Bebé, linda, anda!”
Embora não conseguisse ter a mesma perspectiva que tinha em Alfragide, para apreciar melhor a cena deitei-me no sofá que se encontra na sala-cozinha. E suspirei, preparando-me para mais uma tragédia!!
A comandante entrava e saía, num desespero comovente…
Sentados, um pouco por todo o lado, estavam os nossos irmãos felinos, à excepção da Cinza, claro!, muito curiosos… O Miro e o Nino seguiam-na para todo o lado, os tontos, os gandas graxistas, fingindo participar activamente em mais uma busca pela mocinha…
A “mocinha”, por sua vez, andava no meio deles, acompanhando-os neste incessante vaivém, bem coladinha aos calcanhares da dona que, nesta fase, já se encontrava de lágrima no olho e voz embargada pelo futuro desgosto:
“Pronto! Agora nunca mais a vejo!!”
Mais uma voltinha frenética à casa e ao jardim… E mais chamamento, saindo do mais fundo da sua alma… Nada!
“Já não volta, de certeza, tão pequenina, perdida por aí, nesse mundo cheio de perigos…” (Aqui, até já eu choro!!)
E o Miro e o Nino e a pequenina tão “perdida” nesse mundo cruel, sempre no seu encalço… E a restante população de olhos arregalados de estupefacção!
Ao fim de uma hora de trânsito intenso, senta-se, derrotada, frente ao lume e prepara-se para o “abanicar”… (“Santa Natureza, a Cinza que se mostre, antes que morramos todos intoxicados!”, penso!) Nisto, a nossa matriarca humana olha em volta e vê a Cinzinha sentadinha, bem a seu lado, muito seráfica, com aquele ar cândido, a observá-la…
Bem, o reencontro foi comovente: muito beijinho, muito abracinho, muita lamúria e juras de amizade incondicional a uma felina completamente em pânico e desejando nunca ter “aparecido”!
O regresso da filha pródiga! Pródiga, não sei em quê… Quanto ao regresso… Ela nem tinha saído de casa!
A nossa dona é muito, muito estranha!! Pois, mas agora já a compreendo.
A Cinza desapareceu mesmo, aqui, no nosso novo domicílio, no dia 14 de Janeiro… Foi um pesadelo, com a dona constantemente a chamá-la, a procurá-la desenfreadamente, dias e dias e dias a fio… A meio da noite, levantava-se: “É a Cinza! Ela voltou!!” Mas não era… Nunca mais voltou!
A Maria também desapareceu… No dia 19 de Fevereiro!
Andava já constantemente doente. O único rim que funcionava, estava a falhar cada vez mais frequentemente e já custava vê-la encolhida, cheia de dores… Os internamentos tornaram-se mais longos e desta última vez, tinha voltado para casa no dia 16, depois de oito penosos dias a soro e a injectáveis…
Aproveitou uma ida da dona a Lisboa e, iludindo a vigilância de um amigo SOS, conseguiu escapar…
A dona chegou uma hora depois e foi o descalabro. Chamou, pediu, implorou… “Maria, por favor não me faças isto…” Pois…
As buscas incansáveis… As lágrimas descontroladas… Veio tudo, acho eu: a morte da “Avó”, a Cinza, o Fausto, a vida muito dura desde que para aqui viemos… Nunca a vi assim, sério!
E, claro!, o Simão adoeceu! Por stress, por saudade da Maria, porque já não a podia ouvir… ou muito simplesmente, porque tinha que ser assim! Nunca recuperou, pobrezinho! Foi adormecido no dia 7 de Março…
Aí, pensei que morria a dona também. Desinteressou-se da casa, desinteressou-se de nós… Muito simplesmente desinteressou-se. Até deixou de falar… Preocupante, muito preocupante…
Será que vêm melhores dias?