Sim, sou muito amiga da minha humana!! E compreendo-a como ninguém, chegando mesmo a sentir as suas angústias, os seus medos, as suas revoltas, as suas paranóias… Como se fossem minhas!
Sei que está a passar momentos muito duros, desde que nos mudámos para cá. O desaparecimento do Fausto abalou-a para além do imaginável, ela que sempre lutou para que tudo corresse bem para nós. É verdade quando ela diz que abdica de muita coisa para que nada nos falte!!
Quantas vezes gostaria de comprar qualquer coisa para ela, mas pensa: “Ah, falta acabar de pagar a conta do vet…” ou “Preciso encomendar as rações…” Quantas vezes não sai porque receia que nos assustemos ou que aconteça alguma coisa… E vejo que tem pena!!
Decidi ajudá-la!! Sei que anda farta, quase doente, com uma série de situações menos agradáveis, que se passam nesta casa que ocupamos… A casa do “avô”, que já nem parece a casa do “avô”… Por muito que se faça, a confusão não desaparece!
Eu explico: as obras de recuperação do lado direito da casa, começaram em Março de 2008. O nosso sofrimento, em fins-de-semana e/ou férias, foi aumentado à medida que o caos progredia. Ao ponto de quase termos abandonado Marvão… Um martírio… Uma saudade…
À frente da obra, está um senhor de tez muito, mas muito!, escura, baixinho, aspecto franzino e que nunca tem pressa: o senhor Mascarenhas!! É um humano muito sorridente, que diz “sim” a tudo, enquanto torce o boné entre as mãos… Sujeito estraaamho…
Em Julho deste ano, garantiram à dona que tudo estaria pronto em Setembro, pois já só faltavam alguns pormenores… Estamos no fim de Novembro, mas os tais pormenores mantêm-se!! Os dias tornam-se penosos com a rotina que se instalou.
Até meio de Outubro, éramos invadidos diariamente pelo carpinteiro, pelo electricista, pelo canalizador,… A acompanhar todos estes “técnicos” lá estava ele, o sr. Mascarenhas… Finalmente, estas visitas tornaram-se mais esporádicas… à excepção do sr. Mascarenhas!
Às oito da manhã, de segunda-feira a segunda-feira, o sino do portão bate, ouve-se o ranger do portão, uma chave na porta que dá para o jardim e surge a cara do sr. Mascarenhas: “Sou euuu!” (Um dos familiares da dona tinha-lhe deixado a chave da casa e ele estava muito renitente em devolvê-la!). Deve pensar que nos deixa felizes com este anúncio…
E o que faz o sr. Mascarenhas? Abre porta, fecha porta, desce a escada com um baldinho, sobe a escada com o baldinho, e abre porta, e fecha porta… Todo o dia!!! Pior, o “avô” tem “espanta-espíritos” em todas as portas… E se não são “espanta-espíritos”, são sininhos e guizinhos!!! Os chamados “ alarmes para filhos”. E com a porta a abrir e a fechar é só tlim, tlim, tlim, tlim… Todo o dia, sete dias por semana… Não há cão nenhum que aguente isto!!! Nem eu!
Privacidade e paz, só antes das oito da manhã e depois das oito da noite!!
Há cerca de duas semanas, a dona chegou da escola e ouviu grande alarido. Eu ladrava, ladrava, ladrava… Furiosamente!! O Nino e o Miro faziam coro!! Correu pelas escadas e quando chegou ao hall cá de cima…
O meu pêlo estava todo em pé, tipo Misha, ameaçadoramente, do pescoço à cauda. Fingia investidas nervosas em direcção à escada que dá para a porta do jardim. Ladrava e rosnava, mostrando os poucos dentes que ainda tenho… Bem, estava mesmo assustadora!! Eheheheh… O Nino e o Miro, um de cada lado, apoiavam-me: o Nino ladrava convincentemente, ao mesmo tempo que o Miro rosnava e uivava, rodopiando, feito louco!!
Protegido com a porta, tentando alcançar uma chave, do chaveiro na parede, estava o sr. Mascarenhas, em perfeito desequilíbrio no primeiro degrau da escada… Quando se esticava mais um bocadinho, a porta arrastava-o em direcção às minhas poderosas mandíbulas e o homem via-se grego para voltar a equilibrar-se…
Atrás de nós, cães ferozes, estavam os gatos, um pouco espalhados por toda a parte, seraficamente sentados, a observar toda a cena atentamente, em primeira fila! Acho que o que começou por ser curiosidade degenerou em grande divertimento. Eles sorriam!!! Um sorriso enorme, aberto, cheio de satisfação felina! Até que enfim, alguém se impõe!!
Ainda estou para saber o que deu à dona, sério!!! Primeiro, deixou cair a pasta… Depois deixou descair o maxilar inferior… Em seguida, foi acometida de verdadeiros espasmos… Era com dificuldade que evitava contorcer-se agarrada à barriga… Apendicite?? Seria dor?? A voz dela fez-se, finalmente, ouvir, mas de forma estranha: “PetraHaHaHaHa… PáraHaHaHa…”Emperrou por uns bons cinco minutos e “desculpe, sr. MaHaHaHaHa…caHaHaHaHa… renHaHaHaHaHa…”
Passava-se qualquer coisa, não? A meio de tantos “HaHaHaHaHa…”, em vez de segurar na minha coleira, desapareceu para o quarto dela… Ficámos todos siderados pelo espanto, com a cena… E só se ouvia, vindo lá de dentro: “HaHaHaHaHa… Eu não acredito! HaHaHaHa…” Isto, uma boa meia hora… E o homem no mesmo sítio, mal equilibrado, sem saber o que fazer!!
Resultado, quando conseguiu controlar-se, a chefinha veio ter connosco, mandou-nos para a sala da televisão, enquanto distribuía “presente” às escondidas, gatos incluindo (que já rebolavam com o ridículo da história) e disse para o sr.MaHaHaHa…caHaHaHa…renHaHaHaHa: “Sabe? Estou farta! A partir de agora, fica sem a chave. Quando decidir acabar o trabalho, combina comigo dia e hora! Já vi que a Petra e o senhor não se entendem… É melhor assim!”
E vai de “presente!! Tenho a certeza que apoiou incondicionalmente esta minha iniciativa… Já me devia ter assumido mais cedo!!
Temos andado em paz, desde essa altura, mas os “acabamentos” continuam por acabar… E eu, mal oiço o sino do portão, corro que nem uma cadela de raça considerada perigosa a ver se apanho o sujeitinho do baldinho… E a dona dá “presente”…
Adoro ajudar a minha dona!!!
