quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O nosso dia-a-dia...


Voltei! Chega de interregnos lamurientos… Afinal, nós ainda aqui estamos, quer a nossa humana queira ou não…
Vou começar a falar do nosso dia-a-dia aqui, em Marvão, que é sempre uma animação. Já o era em Alfragide, mas aqui diz-se que há mais “qualidade de vida”. Eheheh…
As nossas manhãs começam pelas 06.00 horas. A dona, ainda a meio de um sono supostamente reparador, é acordada, não pelo despertador, mas pelo peso do olhar da população felina. É tão engraçado: embora estejam sentados, por todo o lado mas maioritariamente em cima da cama, em orientações diferentes, todos os olhares convergem para aquela figurinha adormecida.
Eis que acorda! Grande expectativa fervilha naquela divisão… Ficamos todos em posição para “arrancar”, mal ela ponha os pés no chão…
Leva o seu tempo: pega no relógio para confirmar a hora, resmunga que ainda não é de dia, que a queremos pôr mais louca do que já é, espreguiça-se e começa a tentar tirar as pernas de debaixo da roupa. Digo “tentar”, porque o Simão, o Binxas, a Maria, a Manchinha e o Mangas estão todos sentados em cima dela. Mais refilanço: “Estão com pressa, é? A morrer de fome?? Pois não parece!! Deixem-me sair…”
E recomeça o grande êxodo em direcção à cozinha… Ele são gatos à frente, gatos atrás, gatos entre as pernas… E gritos: “Saiam, bolas! Olha que eu caio… Querem matar-me logo de manhã??” E no meio da multidão de felinos e de toda esta confusão, segue o Mirinho, tentando passar despercebido…
A porta do jardim é aberta e nós, canídeos, saímos, O Nino e o Miro aos encontrões e empurrões, atropelando-se mutuamente, a ver quem sai primeiro, e eu mais devagar, pois já caio muito. As minhas pernas traseiras estão a ir-se… Maldita idade!
Reina a confusão na cozinha: Mangas, Chinha e Cinza atiram-se aos baldes de ração, o Chaka emite “renhaunhaus” muito vigorosos, o Binxas olha com aquele arzinho de sonso, o Simão aguarda dando marradinhas afectuosas, a Maria dá gritinhos e a Misha… Bem, a Misha ameaça todos!! E vai de “Young male” para a Misha e Binx, “Renal” para a Maria e O Simão, “Urinária” para o Chaka e “Júnior” para os três juniores..
O Mangas, sempre sôfrego e lambão, tenta correr os pratos todos e, muitas vezes, acaba fechado noutra divisão, senão nem come nem deixa comer, o safado! A dona senta-se no meio daquela prataria toda, a tomar o seu café e a controlar para impedir “trocas” de pratos e, consequentemente, de rações. O único ruído que se ouve é o mastigar agressivo de sete, às vezes oito, felinos… Ah, e os gemidos agonizantes do Miro, do outro lado da porta envidraçada que dá para o pátio… Agonizantes, porque está a perder o pequeno-almoço dos gatos, o gatuno!!
Comemos em seguida, tendo sempre direito a um “presente”, para nos enganar para o que vem aí, e segue-se a distribuição dos medicamentos a quem precisa (Miro, Binx que tem uma otite, Chaka e eu!), o que é outra guerra digna de ser coloridamente relatada! Acaba, então, de arranjar-se, anda pela casa à procura do que nunca põe em sítio certo e prepara-se para ir trabalhar. Pasta aviada, óculos escuros, chaves, resmunganço: “Nunca sei onde estão as coisas!! A situação cá em casa tem que mudar… Ah, sim, vão haver novas regras! A ver se este caos acaba!” Ok, já sabemos! Eu, pelo menos, oiço este discurso há mais de 11 anos!!
Esperamos horas infinitas que ela chegue, neste casarão enorme… A angústia instala-se a meio da tarde, pois a luz ameaça desaparecer e continuamos sozinhos…
Chega, finalmente! Estamos todos nas escadas principais, à espera, e fazemos-lhe uma recepção digna de um elemento de uma qualquer Casa Real… Vem cansada: “Parem, bolas! Esperem um pouco…”
Sobe, arrastando a pesada pasta de couro, com dificuldade (os degraus são muito íngremes e irregulares!) e no último andar, aquele que ocupamos, pousa o trambolho, despe o blusão e…
O ritual dos pratos, dos gatos e das rações repete-se e ela aproveita para se sentar um pouco…
Nós, infelizes cães, aguardamos pelo nosso momento especial: o passeio na serra…
Enfim, a melhor parte do dia! Serra, maravilhosa serra!! Corremos, corremos, corremos… O Miro parece um louco, calçada romana abaixo, calçada romana acima… O Nino trata de deixar a sua “imagem” para a posteridade, “marcando”, “marcando”,… E escurece… E arrefece… E eu já não me tenho nas patas… É a hora do regresso! E passo vergonhas: é que para baixo, todos os santos ajudam, mas para cima…
Começa a almiranta: “Vá, Petra, deixa que a dona ajuda, sim?” Que vergooonhaaa! Segura-me pela coleira, com muita gentileza, ela que é bruta que nem um calhau, e conduz-me até às Portas da Vila… Olho em volta e tenho sorte: ninguém está ali para ver estes sinais do meu declínio!!
Em casa, agora que estamos em Novembro e o frio prepara-se para se instalar em grande, a lareira é acendida na cozinha e os caloríferos na sala da televisão e no quarto que a dona ocupa. Os gatos instalam-se frente ao quentinho e a paz da noite abate-se neste casarão imenso… Nós jantamos, com direito a “surpresa” para compensar o dia de solidão e a dona dedica-se a tarefas domésticas ou outras.
Antes da deita, há nova distribuição de medicamentos e mais uma guerra de rações felinas e depois é a calma, o sossego absoluto.
Quem diria??

4 comentários:

CilaRodrigues disse...

Querida amiga ADORO ver-te de volta ... as tuas histórias fazem muita falta
bjinhos muito grandes
Cila

Edgar Neves disse...

Em Marvão a vida era tão calma... Esta linda terra fervilhava de sossego, silêncio e paz... Agora não! Há movimento, alegria, miares e ladrares, correrias, tomadas de Xanax´s suplementares... Mas também há uma grande família e uma fartura de amor e um ego diáriamente cheio e renovado de coisas boas.

Beijinhos para a ruiva mais ruiva de Marvão, para tudo quanto é cão e gato... E um abraço amigo para a "Chefe" e restante família.

Do amigo MILORD

Pimas disse...

Mais uma história que dá vontade de ler e reler :-). Parabéns pela forma como descreve coisas simples, como o dia-a-dia de uma família :-)! Petra, amiga, a "qualidade de vida" há-de chegar...em pleno. Beijinhos para todos

Sara disse...

O vosso dia-a-dia é trabalhoso mas nunca monotono :)

Também eu sou acordada pelo meu despertador felino que dorme em cima de mim mas que é mais pontual a acordar-me que um despertador eheheh

A vida por mais dificil que seja tem logo outra alegria ao tê-los por perto.

Falo por mim mas o dia até pode ter-me corrido mal mas mal chego a casa e vejo os meus canitso de rabo a abanar felizes por me ver, ganho logo outra disposição.

Eles podem cansar-nos mas também nos dão muita energia. Bjs