Sim, venho despedir-me. Está a chegar o dia… “Aquela” hora… O meu coração está cada vez mais fraquinho e já foi feito todo o reforço de medicamentos possível, penso eu. As minhas patas traseiras recusam-se a colaborar comigo e custa-me cada movimento. É cada vez mais frequente estatelar-me na tijoleira ou no empedrado do jardim e lá vem a dona, a correr, de lágrimas nos olhos, ajudar-me a levantar.
Passo muito tempo deitadinha, bem tapadinha com belas mantas polares e aquecida pela botijinha de água quente com que tanto embirrava… Ainda faz muito frio à noite e a casa não prima por ser climatizada…
Reina a paz, aparentemente…Oiço o burburinho dos pinheiros da propriedade ao lado e o crepitar da lenha na lareira. Sons que me apaziguam e permitem que caia nesta deliciosa semi-sonolência.
Ao longe, oiço a voz da dona… Ralha, para variar, com alguém dos restantes 23… Talvez com a Ammaia ou com a Missy, que passam a vida no wrestling, sei lá… Vou mesmo sentir a falta de tudo isto!
Passo a minha curta vida em revista e confesso que fui, e sou!, muito, muito feliz. Dediquei-me a esta humana de corpo e alma, sobretudo alma, já que o corpo sempre foi mais difícil de dominar. Recebi esta dedicação de volta, acho que até de forma exagerada e ansiosa…
O nosso dia-a-dia, os nossos rituais de afecto incondicional… As nossas férias na praia… Oh, as férias na praia… Quantas histórias, quantos episódios hilariantes! As minhas birras… As birras dela… Os meus aniversários e as prendas de Natal!!
Vou ter mesmo muitas saudades desta enorme, alegre e caótica família. A hora das refeições com todo aquele bulício, a dona no refilanço do costume, enquanto tropeça num e noutro e ainda noutro…
A falta que o meu Nininho, o meu grande companheiro, me fará… O Nininho, o cão mais cavalheiro que tive a oportunidade de conhecer… Já tão minado pelo reumatismo, mas sempre um gourmet! Aquele olhar quente que tanto carinho e fidelidade transmite. Tantos anos juntos!!!
E a Mishinha e o seu muito mau feitio?? Agora com os seus 12 anos, bem mais calma. Acho mesmo que mais descontraída… Bem, claro que continua a não resistir a distribuir umas belas patadas, bufadelas e rosnadelas a quem passa próximo… Misha imutável e inimitável!
O Chakinha, o nosso gordo ansioso… Agora anda melhor, pois já deve ter percebido, ao fim de todo este tempo, que aqui nada de mau lhe acontecerá e será sempre tratado como um príncipe. Os seus grandes e redondos olhos amarelo-latão deixam transparecer, já com uma certa frequência, um lampejo de infinita gozação. Tem-se integrado, felizmente, e é com estupefacção e satisfação que já o apanhámos a dormir com… a MISHA! Sem mais comentários…
O meu Binx, o gato mais dengoso e aristocrático que se passeia por aqui… Teve azar com o clima alentejano, mas de resto é feliz com esta incrível liberdade. Dedicou-se à “herança” (Gordo, Terri e Barriguinha) e passa o tempo com eles, junto à salamandra…
O Mirinho… O nosso lelito… Acalmou um pouco (mas só mesmo um pouquinho!) desde a esterilização, mas continua com a sua paixão pela pastorícia e com as suas ideias brilhantes, claro!, seguidas com entusiasmo pela sua fiel discípula e seguidora, a Ammaia… E, depois, admira-se por levar com a “Crise”!
Oh, e os “Juniores” (Mangas e manchinha), os “Metralhinhas” (Billy, Benny e Becky) e as Bratz (Pipa, Martinha, Matilde e Moїra)... Não reconheço alguns, sobretudo as últimas, pois estou completamente cega, mas sinto-as entre as minhas pernas e a tentarem partilhar a minha botijinha de água quente…
Vou ter mesmo muitas saudades das minhas quezílias com a Ammaiocas… Não me posso queixar, pois tem-me feito companhia nos meus períodos de grande exaustão e consequente prostração, períodos estes cada vez mais frequentes. E encosta-se muito, aquecendo-me com aquela corpanzil… Já nem consigo rosnar-lhe, só para mostrar quem manda… Isto apenas para não dar parte de fraca, claro!, já que me sabe imensamente bem tanto calorzinho. Chego a adormecer em paz, com uma saborosa sensação de segurança! Mas, que fique escrito, não sinto quaisquer remorsos por lhe ter feito a infância e a adolescência bastante difíceis. Eheheh…
A Zamba, o Brian, o Boy, a Missy… Não esquecerei nenhum, mesmo. Comigo irão todas as recordações dos bons momentos com tantos amigos!
O que lamento mesmo mais, é deixar a minha dona!
A apreensão invade-me. Uma enorme angústia incomoda-me de forma atroz… Quem, Qual deles, terá paciência para a ouvir noites sem fim? Quem lhe emprestará uma omoplata para chorar as suas penas?? Quem a acompanhará, passo a passo, minuto a minuto, dia a dia, drama a drama, no resto da sua vida??? E quem se rirá a bandeiras despregadas com os seus inúmeros disparates e exageros?
A Zamba, talvez, a Zamba dos olhos doces… Talvez seja ela quem vai ocupar o meu lugar na vida e no coração da dona. A Zamba que só vive e respira se a generala estiver por perto… Qualquer ida dela a Lisboa deixa esta pequena companheira em profunda depressão. Como se a dona não voltasse mais!
Oh, como já estou cheia de saudades!!!