sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ah, como gosto de ajudar a minha dona!!


Sim, sou muito amiga da minha humana!! E compreendo-a como ninguém, chegando mesmo a sentir as suas angústias, os seus medos, as suas revoltas, as suas paranóias… Como se fossem minhas!
Sei que está a passar momentos muito duros, desde que nos mudámos para cá. O desaparecimento do Fausto abalou-a para além do imaginável, ela que sempre lutou para que tudo corresse bem para nós. É verdade quando ela diz que abdica de muita coisa para que nada nos falte!!
Quantas vezes gostaria de comprar qualquer coisa para ela, mas pensa: “Ah, falta acabar de pagar a conta do vet…” ou “Preciso encomendar as rações…” Quantas vezes não sai porque receia que nos assustemos ou que aconteça alguma coisa… E vejo que tem pena!!
Decidi ajudá-la!! Sei que anda farta, quase doente, com uma série de situações menos agradáveis, que se passam nesta casa que ocupamos… A casa do “avô”, que já nem parece a casa do “avô”… Por muito que se faça, a confusão não desaparece!
Eu explico: as obras de recuperação do lado direito da casa, começaram em Março de 2008. O nosso sofrimento, em fins-de-semana e/ou férias, foi aumentado à medida que o caos progredia. Ao ponto de quase termos abandonado Marvão… Um martírio… Uma saudade…
À frente da obra, está um senhor de tez muito, mas muito!, escura, baixinho, aspecto franzino e que nunca tem pressa: o senhor Mascarenhas!! É um humano muito sorridente, que diz “sim” a tudo, enquanto torce o boné entre as mãos… Sujeito estraaamho…
Em Julho deste ano, garantiram à dona que tudo estaria pronto em Setembro, pois já só faltavam alguns pormenores… Estamos no fim de Novembro, mas os tais pormenores mantêm-se!! Os dias tornam-se penosos com a rotina que se instalou.
Até meio de Outubro, éramos invadidos diariamente pelo carpinteiro, pelo electricista, pelo canalizador,… A acompanhar todos estes “técnicos” lá estava ele, o sr. Mascarenhas… Finalmente, estas visitas tornaram-se mais esporádicas… à excepção do sr. Mascarenhas!
Às oito da manhã, de segunda-feira a segunda-feira, o sino do portão bate, ouve-se o ranger do portão, uma chave na porta que dá para o jardim e surge a cara do sr. Mascarenhas: “Sou euuu!” (Um dos familiares da dona tinha-lhe deixado a chave da casa e ele estava muito renitente em devolvê-la!). Deve pensar que nos deixa felizes com este anúncio…
E o que faz o sr. Mascarenhas? Abre porta, fecha porta, desce a escada com um baldinho, sobe a escada com o baldinho, e abre porta, e fecha porta… Todo o dia!!! Pior, o “avô” tem “espanta-espíritos” em todas as portas… E se não são “espanta-espíritos”, são sininhos e guizinhos!!! Os chamados “ alarmes para filhos”. E com a porta a abrir e a fechar é só tlim, tlim, tlim, tlim… Todo o dia, sete dias por semana… Não há cão nenhum que aguente isto!!! Nem eu!
Privacidade e paz, só antes das oito da manhã e depois das oito da noite!!
Há cerca de duas semanas, a dona chegou da escola e ouviu grande alarido. Eu ladrava, ladrava, ladrava… Furiosamente!! O Nino e o Miro faziam coro!! Correu pelas escadas e quando chegou ao hall cá de cima…
O meu pêlo estava todo em pé, tipo Misha, ameaçadoramente, do pescoço à cauda. Fingia investidas nervosas em direcção à escada que dá para a porta do jardim. Ladrava e rosnava, mostrando os poucos dentes que ainda tenho… Bem, estava mesmo assustadora!! Eheheheh… O Nino e o Miro, um de cada lado, apoiavam-me: o Nino ladrava convincentemente, ao mesmo tempo que o Miro rosnava e uivava, rodopiando, feito louco!!
Protegido com a porta, tentando alcançar uma chave, do chaveiro na parede, estava o sr. Mascarenhas, em perfeito desequilíbrio no primeiro degrau da escada… Quando se esticava mais um bocadinho, a porta arrastava-o em direcção às minhas poderosas mandíbulas e o homem via-se grego para voltar a equilibrar-se…
Atrás de nós, cães ferozes, estavam os gatos, um pouco espalhados por toda a parte, seraficamente sentados, a observar toda a cena atentamente, em primeira fila! Acho que o que começou por ser curiosidade degenerou em grande divertimento. Eles sorriam!!! Um sorriso enorme, aberto, cheio de satisfação felina! Até que enfim, alguém se impõe!!
Ainda estou para saber o que deu à dona, sério!!! Primeiro, deixou cair a pasta… Depois deixou descair o maxilar inferior… Em seguida, foi acometida de verdadeiros espasmos… Era com dificuldade que evitava contorcer-se agarrada à barriga… Apendicite?? Seria dor?? A voz dela fez-se, finalmente, ouvir, mas de forma estranha: “PetraHaHaHaHa… PáraHaHaHa…”Emperrou por uns bons cinco minutos e “desculpe, sr. MaHaHaHaHa…caHaHaHaHa… renHaHaHaHaHa…”
Passava-se qualquer coisa, não? A meio de tantos “HaHaHaHaHa…”, em vez de segurar na minha coleira, desapareceu para o quarto dela… Ficámos todos siderados pelo espanto, com a cena… E só se ouvia, vindo lá de dentro: “HaHaHaHaHa… Eu não acredito! HaHaHaHa…” Isto, uma boa meia hora… E o homem no mesmo sítio, mal equilibrado, sem saber o que fazer!!
Resultado, quando conseguiu controlar-se, a chefinha veio ter connosco, mandou-nos para a sala da televisão, enquanto distribuía “presente” às escondidas, gatos incluindo (que já rebolavam com o ridículo da história) e disse para o sr.MaHaHaHa…caHaHaHa…renHaHaHaHa: “Sabe? Estou farta! A partir de agora, fica sem a chave. Quando decidir acabar o trabalho, combina comigo dia e hora! Já vi que a Petra e o senhor não se entendem… É melhor assim!”
E vai de “presente!! Tenho a certeza que apoiou incondicionalmente esta minha iniciativa… Já me devia ter assumido mais cedo!!
Temos andado em paz, desde essa altura, mas os “acabamentos” continuam por acabar… E eu, mal oiço o sino do portão, corro que nem uma cadela de raça considerada perigosa a ver se apanho o sujeitinho do baldinho… E a dona dá “presente”…
Adoro ajudar a minha dona!!!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Binx, o demolidor!


Sim, é mau não ter ainda apresentado toda a família, isto à excepção dos juniores que ainda não mostraram as suas verdadeiras características. Estou mesmo muito velhota, é o que isto quer dizer…
O Binxas chegou com uma brava intempérie, no dia 30 de Setembro de 2007… O fim-de-semana ficou marcado por uma bela tromba de água que se abateu por todo o país. A coisa estava tão mal que o Nino e eu, para sairmos, tínhamos que ser, literalmente, empurrados para o elevador e, depois, para e pela porta do prédio, por uma humana enfurecida!!
Eram umas 10.00 da manhã e a chuva intensa não parava!! Ao passarmos por baixo de uma das árvores, existentes na praceta, ouvimos uns gritinhos… Olhámos para cima e deparámos com um felino preto, fininho, que nem miar sabia, apesar de parecer já adulto. Ainda hoje é assim: gritinhos, mais gritinhos, excepto se estiver a cortejar a Maria… Aí, é um pesadelo misto de gritinhos com uns sons estranhóides, que ainda não conseguimos entender!!
A dona suspirou: “Não olhem, meninos. Há-de ter dono, com certeza!!”
À tarde, o jovem continuava na mesma árvore, mas tinha subido alguns ramos, talvez a prevenir-se de uma eventual inundação… A dona voltou a olhar para o lado, mas custou-lhe…
Eram já 10.00 da noite quando voltámos a sair, ameaçados de morte, empurrados… e por aí fora. Enfim, o filme do costume...
O gato encontrava-se no mesmo local, mas cada vez mais alto… A chuva não abrandava nem por nada e ele só emitia gritinhos… A dona não aguentou: levou-nos para casa e foi buscar um escadote, resmungando entre dentes: “Só a mim, realmente… Só a mim!! Eles caem-me aos pés… Deve ser castigo!!”
A aventura, claro!, não terminou bem… Primeiro, o escadote era curto, pelo que a dona teve que trepar ao ramo mais baixo que, ainda assim, era bem alto. Segundo, a dona também não deve nada ao comprimento, mas lá se safou, nesta primeira fase… Terceiro, a escuridão era imensa e o sujeitinho muito preto…
Ao fim de uma “perseguição”, acesa e muito empenhada, pelos ramos molhados da árvore, lá o conseguiu apanhar e começar a trazer para baixo. Com tudo escorregadio, um gatarrão ao colo, a descer de uma árvore sem ver absolutamente coisa alguma, tenteando a ver se o escadote ainda lá estava, é mais que lógico que uma queda seria inevitável… E caabuuummm!, a dama aterrou cá em baixo, na relva enlameada, com um felino infeliz e ensopado nos braços e um pé torcido!! E muita sorte tiveram!!
O Binx é um lindo preto fininho, com um pêlo muito brilhante e pose muito aristocrática, muito, muito simpático!
Ficou no escritório da dona, nessa noite, e no dia seguinte foi ao vet. Segundo o parecer médico, tudo estava bem com ele, à excepção de uma otite bilateral provocada por ácaros. Dado o seu bom ar, pêlo brilhante, meiguice extrema e pouca idade (cerca de um ano), presumiu-se que estaria perdido…
Voltou de orelhinhas limpas e devidamente medicado e, imediatamente, a nossa almirante produziu uma série de cartazes para distribuir, à procura de uns donos que não deviam querer saber de nada... Como é óbvio, nunca apareceu ninguém…
O Binx ambientou-se lindamente. À parte os encontros imediatos com a Misha (e foram mesmo muitos!), foi muito bem aceite. Até achávamos graça àquele arzinho muito sorna… Só mesmo o “arzinho”…
Dedicou-se, logo desde o início, à remodelação do nosso domus… Ele atirava com tudo para chão, partia tudo, ia para sítios que não lembrava a nenhum de nós... Não dormia e não deixava dormir, sempre com invenções loucas! Aliás, era raro vê-lo sossegado ou a dormir!
Adorava, e adora!, molhar-se e sacudir-se em cima dos móveis, da cama da dona, dos papéis da dona...
Era uma alegria, de manhã até de madrugada: o ruído de objectos a caírem, um pouco por todos os sítios, os gritos da dona!, objectos a partirem-se, os gritos da dona!, água em todo o lado bem misturada com papéis importantes que, entretanto, juncavam o chão, os gritos da dona!, grandes cavalgadas pela casa, umas vezes à frente, outras atrás do Simão e da Maria... E a velocidade?? E os gritos da dona??? Até ficávamos zonzos…
Episódios daqueles de gatil/cuidados intensivos foram mais que muitos! Aliás, penso, um dia, se a vida assim o permitir, escrever uma monografia sobre o Binx e o Miro!! O nosso quotidiano nunca seria o mesmo sem ambos…
Ouso afirmar que este preto fininho é dos felinos mais felizes aqui em casa. Não mostra quaisquer sinais de stress… Aliás, ele resolve muito bem qualquer situação mais stressante com uma das suas ideias luminosas… Foi tirado da rua muito a tempo. Pelo bom feitio, pela meiguice e ingenuidade, quer-me parecer que tinha acabado de lá ir parar nesse fim-de-semana terrível, ou seja, não houve tempo para traumas, felizmente.
Em Marvão modificou-se um pouco, talvez por passar muito tempo no jardim. Anda mais calmo, mais sensato, mais adulto… As asneiradas têm sido em menor número, o que leva a dona a apalpá-lo, a ver se dói alguma coisa ou se tem febre, ao mesmo tempo que resmunga: “Não querem lá ver que resolveu adoecer?? Que vida!”
Engraçado: ela nunca mais se lembrou do AXN, mas nós não andamos a apalpá-la, nem a esborrachar-lhe o nariz, nem a pregar-lhe sustos de morte, a meio da noite, a ver se ainda respira ou o coração bate… Porque é que, sempre que decidimos curtir outra onda, temos que estar doentes??? Mania…
Agora, com a consciência mais tranquila em relação ao nosso irmão felino mais dengoso, já posso ir reservar o meu lugar no quentinho da cama da dona… Bem mereço, que a idade é muita e os ossos são mais sensíveis…

domingo, 22 de novembro de 2009

Chaka, o sofrido...


O frio instalou-se aqui nestas terras altas. Às cinco da tarde, já estamos todos em casa, pois mal desaparece o solinho, os graus Celsius vêm por aí abaixo… Todos?? Não, falta o nosso preto gordo, o Chakinha!
O Chaka decidiu “jantar” fora com uma certa frequência, o que, sobretudo desde o desaparecimento do Fausto, deixa a dona à beira de um belo de um ataque de nervos! E sai… E entra… E volta a sair de lanterna em riste… E entra de lanterna caída… E chama… E ameaça… Enfim, um show completo! Até que Sua Excelência chega… Nada apressado… Tudo numa muito boa! A almirante ainda abre a boca, para lhe dizer das boas, só que o espertalhão olha-a com aqueles enormes olhos amarelos sempre tocados pela ansiedade e ela acaba por recuar e pronto!
O “rapaz” chegou em Agosto de 2006. A Maria tinha desaparecido em pleno primeiro cio e a nossa matriarca ia deixando comidinha na porta do jardim, a ver se a convencia a voltar. A comida desaparecia e a Maria não aparecia!! Tanta choradeira que aturei… E deixou de comer… Pensou mesmo dormir no jardim, à espera… Ela, coitada!, não é muito normal, não!! E quando descobriu que a ração era consumida por um gato preto e não pela “menina”??? Beeeemmm…
E a Maria voltou ao fim de três dias… E o gato preto continuava a rondar a porta, esquelético, com barriga demasiado volumosa, quase sem pêlo. Metia dó, até porque estava coberto de crostas e a pelagem, rala e cheia de falhas, era mais cinzenta que preta.
O Chaka revelou-se muito inteligente. Inicialmente comia do pratinho deixado na porta do jardim, mas depressa se aventurou dentro de casa e começou a comer dos nossos, na cozinha. E inspeccionou, muito a medo, a casa toda… Deve ter-lhe agradado, pois aventurou-se ainda mais: passava as tardes deitado num dos cadeirões de vime, no hall do andar de cima, aquele que ocupamos.
A nossa dona, no Verão, costuma fechar a porta do jardim pelas 09.30/10.00 da noite e começa a tourada das entradas… Chama, vai buscar um a um, escapam-se outros, ameaças, pedidos comoventes para que entremos, subornos, enfim, um filme digno dos irmãos Marx! O Chaka apercebeu-se disso, pelo que a essa hora lá estava ele no cadeirão, mas de cabeça bem enterrada no almofadão tipo “Se ela não me vir, pode ser que me deixe dormir em casa!” E quem tinha coragem de o pôr na rua??
Foi ficando até que se aproximou o fim das férias. Ninguém o queria. Todos quantos foram contactados pela dona, responderam que não ficavam com um gato tão feio e doente, o que fez com que ela decidisse levá-lo ao vet e depois adoptá-lo.
Surpresa desagradável: as crostas eram queimaduras que lhe tinham infligido, brasas ou cigarros, origem impossível de determinar tal era a infecção de algumas… Os dentes do lado esquerdo de ambos os maxilares estavam partidos, possivelmente a pontapé, e havia outra infecção na boca… Os restantes dentes encontravam-se super gastos e presumiu-se que até pedras e paus terá roído para sobreviver… E ainda tinha uma grave infecção abdominal devido a parasitas…
Foram dias terríveis, com a generala revoltadíssima com os seus congéneres! Muitos impropérios ouvimos!
O tratamento durou meses, até praticamente ao Natal, e ele aguentou tudo! Tudo?? Não!! A Misha aterrorizava-o de tal forma que o Chaka, mal a via, gritava de horror! Preferia dormir comigo e com o Nino… Os outros intimidavam-no muito.
Agora, tudo está bem diferente. Os olhos, embora ansiosos, já não têm aquele pânico permanente. E já levanta a patinha para chegar nos outros… Sim, tem muitos problemas de saúde, pois a vida não o poupou, mas penso que, embora ainda se sinta receoso quanto ao futuro, está muito feliz! E tornou-se um belo felino! A cor é definitivamente preta, finalmente, e o manto tornou-se espesso e macio… Come que eu sei lá!! E tem uma particularidade: é o único gato que nunca sai para a rua sem tomar o pequeno-almoço!! Assim como assim, se a dona resolver deixá-lo, pensa ele, deixa-o de barriga cheia!!
E agora são horas de aquecer o meu lugar na caminha da dona!!!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O nosso dia-a-dia...


Voltei! Chega de interregnos lamurientos… Afinal, nós ainda aqui estamos, quer a nossa humana queira ou não…
Vou começar a falar do nosso dia-a-dia aqui, em Marvão, que é sempre uma animação. Já o era em Alfragide, mas aqui diz-se que há mais “qualidade de vida”. Eheheh…
As nossas manhãs começam pelas 06.00 horas. A dona, ainda a meio de um sono supostamente reparador, é acordada, não pelo despertador, mas pelo peso do olhar da população felina. É tão engraçado: embora estejam sentados, por todo o lado mas maioritariamente em cima da cama, em orientações diferentes, todos os olhares convergem para aquela figurinha adormecida.
Eis que acorda! Grande expectativa fervilha naquela divisão… Ficamos todos em posição para “arrancar”, mal ela ponha os pés no chão…
Leva o seu tempo: pega no relógio para confirmar a hora, resmunga que ainda não é de dia, que a queremos pôr mais louca do que já é, espreguiça-se e começa a tentar tirar as pernas de debaixo da roupa. Digo “tentar”, porque o Simão, o Binxas, a Maria, a Manchinha e o Mangas estão todos sentados em cima dela. Mais refilanço: “Estão com pressa, é? A morrer de fome?? Pois não parece!! Deixem-me sair…”
E recomeça o grande êxodo em direcção à cozinha… Ele são gatos à frente, gatos atrás, gatos entre as pernas… E gritos: “Saiam, bolas! Olha que eu caio… Querem matar-me logo de manhã??” E no meio da multidão de felinos e de toda esta confusão, segue o Mirinho, tentando passar despercebido…
A porta do jardim é aberta e nós, canídeos, saímos, O Nino e o Miro aos encontrões e empurrões, atropelando-se mutuamente, a ver quem sai primeiro, e eu mais devagar, pois já caio muito. As minhas pernas traseiras estão a ir-se… Maldita idade!
Reina a confusão na cozinha: Mangas, Chinha e Cinza atiram-se aos baldes de ração, o Chaka emite “renhaunhaus” muito vigorosos, o Binxas olha com aquele arzinho de sonso, o Simão aguarda dando marradinhas afectuosas, a Maria dá gritinhos e a Misha… Bem, a Misha ameaça todos!! E vai de “Young male” para a Misha e Binx, “Renal” para a Maria e O Simão, “Urinária” para o Chaka e “Júnior” para os três juniores..
O Mangas, sempre sôfrego e lambão, tenta correr os pratos todos e, muitas vezes, acaba fechado noutra divisão, senão nem come nem deixa comer, o safado! A dona senta-se no meio daquela prataria toda, a tomar o seu café e a controlar para impedir “trocas” de pratos e, consequentemente, de rações. O único ruído que se ouve é o mastigar agressivo de sete, às vezes oito, felinos… Ah, e os gemidos agonizantes do Miro, do outro lado da porta envidraçada que dá para o pátio… Agonizantes, porque está a perder o pequeno-almoço dos gatos, o gatuno!!
Comemos em seguida, tendo sempre direito a um “presente”, para nos enganar para o que vem aí, e segue-se a distribuição dos medicamentos a quem precisa (Miro, Binx que tem uma otite, Chaka e eu!), o que é outra guerra digna de ser coloridamente relatada! Acaba, então, de arranjar-se, anda pela casa à procura do que nunca põe em sítio certo e prepara-se para ir trabalhar. Pasta aviada, óculos escuros, chaves, resmunganço: “Nunca sei onde estão as coisas!! A situação cá em casa tem que mudar… Ah, sim, vão haver novas regras! A ver se este caos acaba!” Ok, já sabemos! Eu, pelo menos, oiço este discurso há mais de 11 anos!!
Esperamos horas infinitas que ela chegue, neste casarão enorme… A angústia instala-se a meio da tarde, pois a luz ameaça desaparecer e continuamos sozinhos…
Chega, finalmente! Estamos todos nas escadas principais, à espera, e fazemos-lhe uma recepção digna de um elemento de uma qualquer Casa Real… Vem cansada: “Parem, bolas! Esperem um pouco…”
Sobe, arrastando a pesada pasta de couro, com dificuldade (os degraus são muito íngremes e irregulares!) e no último andar, aquele que ocupamos, pousa o trambolho, despe o blusão e…
O ritual dos pratos, dos gatos e das rações repete-se e ela aproveita para se sentar um pouco…
Nós, infelizes cães, aguardamos pelo nosso momento especial: o passeio na serra…
Enfim, a melhor parte do dia! Serra, maravilhosa serra!! Corremos, corremos, corremos… O Miro parece um louco, calçada romana abaixo, calçada romana acima… O Nino trata de deixar a sua “imagem” para a posteridade, “marcando”, “marcando”,… E escurece… E arrefece… E eu já não me tenho nas patas… É a hora do regresso! E passo vergonhas: é que para baixo, todos os santos ajudam, mas para cima…
Começa a almiranta: “Vá, Petra, deixa que a dona ajuda, sim?” Que vergooonhaaa! Segura-me pela coleira, com muita gentileza, ela que é bruta que nem um calhau, e conduz-me até às Portas da Vila… Olho em volta e tenho sorte: ninguém está ali para ver estes sinais do meu declínio!!
Em casa, agora que estamos em Novembro e o frio prepara-se para se instalar em grande, a lareira é acendida na cozinha e os caloríferos na sala da televisão e no quarto que a dona ocupa. Os gatos instalam-se frente ao quentinho e a paz da noite abate-se neste casarão imenso… Nós jantamos, com direito a “surpresa” para compensar o dia de solidão e a dona dedica-se a tarefas domésticas ou outras.
Antes da deita, há nova distribuição de medicamentos e mais uma guerra de rações felinas e depois é a calma, o sossego absoluto.
Quem diria??

domingo, 1 de novembro de 2009

Há quanto tempo!!


Tantas novidades…
Nem sei por onde começar! Sim, fomos colocados no concelho de Marvão, nós na casa do “avô” e a dona numa escola… Só podia: afinal éramos o número 24 a nível nacional!!!
A vida parecia começar a querer correr bem, mas… Nunca é como desejamos!!
As nossas férias em Marvão têm início sempre na primeira semana de Agosto, mas este ano não aconteceu assim… Alguém se lembrou de vir primeiro, sem querer saber de nós que sempre viemos para cá nessa altura e pronto! Esses “alguéns” também não queriam que a dona viesse para cá por nossa causa… Chegaram mesmo a exigir que ficássemos no jardim e nunca dentro de casa! Mas o nosso “Avô” é o maior e impôs-se, defendendo-nos!!
Viemos a 14 de Agosto, um dia de calor infernal. Saímos muito cedo, mas como o Nhau-Nhau estava doente, tivemos que parar mais vezes para a dona controlar o estado dele…
A nossa felicidade quando chegámos finalmente era indescritível! No entanto, o nosso desejo por uma maior qualidade de vida tem vindo a ser cada vez mais ensombrado…
As obras não estavam acabadas… Não estavam, nem estão, pois aqui o ritmo é muito diferente!
Todos os dias (de segunda a domingo!), às sete horas e trinta minutos, entravam resmas de homens… Pedreiros, pintores, carpinteiros, electricistas… A dona andava, e anda!, numa fúria… Queria tomar banho, apareciam na única casa de banho que se encontra a funcionar, sem qualquer cerimónia. Bater à porta? Para quê? Era tudo deles!!
Até um dia!! Bem, nem queria crer no que vi e ouvi! A dona não costuma comportar-se assim… Fez-se um daqueles silêncios sepulcrais e a partir desse incidente meia população de Marvão aprendeu a bater à porta e a pedir licença, mesmo para respirar!!
Esta é uma sociedade muito machista… Mulheres não mandam… Mulheres não opinam… Não conheciam era esta faceta da nossa generala!! Agora não esquecem…
Agora, vem menos gente, mas há muita coisa por terminar. Enfim… Será que teremos, alguma vez, o sossego que a dona tanto desejava??
Tenho más notícias… A tal “qualidade de vida” tão apregoada ainda não se deu a conhecer…
A Maria foi atropelada, fazendo fracturas em quatro pontos da bacia e numa vértebra da cauda. Condenada ao isolamento para não deslocar os pontos de fractura, fez nova crise renal e esteve internada muito tempo numa clínica em Portalegre! Agora encontra-se benzinho, embora um pouco coxinha e corcovada.
O Fausto morreu segunda-feira passada… É melhor nem lembrar isso, porque a nossa dona anda muito sensível… Nem parece ela, a chorar pelos cantos. Sentimos muito a falta dele e ainda não conseguimos perceber o que se passou com o nosso Nhau-Nhau! Ficam os bons momentos…
Temos mais três convivas felinos, muito jovens e chatos. Por ordem de chegada são: o Mangas, a man(Chinha) e a Cinza. Estas duas últimas são irmãs, embora a Cinzinha seja tipo Maria: subdesenvolvida…
Animação não falta, mas fica para a próxima, prometendo ser o mais brevemente possível… Neste momento, encontramo-nos a fazer o nosso luto pelo Fausto, o que torna tudo muito melancólico. Não seria interessante fazer a descrição de quanto se passa aqui, de lágrimas nos olhos.