quinta-feira, 20 de maio de 2010

Chegou o bom tempo!


Sim, chegou, finalmente, após alguns ameaços mal sucedidos. Pode não aguentar assim, radioso e quente, mas o frio intenso que deu cabo da nossa resistência já não deve regressar tão cedo.
As portas para o jardim já ficam abertas o dia todo, a ver se a casa aquece e perde a humidade acumulada. Talvez seja agora que aquele cheiro, que nos tem entupido as narinas e se instalou em móveis, paredes e roupas, desapareça…
As andorinhas regressaram há meses, coitadas, sem saberem o que ainda as esperava e recuperaram os seus ninhos nos nossos beirais. Gosto de as ouvir, enquanto se apressam nas suas tarefas diárias… Ao mesmo tempo, começou nova etapa de angústia para a dona: impedir que caiam nas garras da Maria… e seus acólitos! Sim, o Mangas e a Cinzas já demonstraram que também são predadores implacáveis. E a Misha??? Está do piorio!!
Há tempos, apareceram penas sobre uma das bancadas da lareira, de manhã, bem cedinho. Desgrenhada, bocejando e resmungando, como é hábito, a dona estacou, petrificada, olhos muito arregalados… Vá lá, o sono era tanto que deve ter decidido adiar a cena do costume para a parte da tarde. Sim, de manhã, o calendário é sempre muito apertado, entre a distribuição das rações felinas, a alimentação da “Moby Dick” (Ammaia) e a nossa, e, na altura, ainda cá estavam os “netinhos”…
A visita matinal aos queridos “rebentos” era indispensável e obrigatória: “ Então, pequeninos… Estão tão gaaandes… Quando é que abrem os olhinhos? O mundo é tão liiiindooo!!” “Pois”, pensava eu, “sobretudo lindo!!! Vamos ver como o mundo é liiiindooo logo à tarde!!”
A rapaziada nasceu no dia 14 de Março, dia em que a dona ia visitar o “Avô” e tinha que se levantar às 04.30… da manhã! Praticamente, não dormiu pois a Manchinha estava muito mais chata do que é natural nela. Não tinha posição, andava de cama para cama, incomodando tudo e todos, e lambia-se constante e ruidosamente. À noite dá mesmo um jeitão: qualquer ruídinho de nada toma enormes proporções e impede que nos concentremos no sono, com dedicação e empenho…
Às cinco da manhã, grande alarido: tinha nascido o primeiro “neto”.Um ser muito pequenino, todo lambuzado e preto retinto… Huuummm… Olhámos pensativamente para o Binxas, que ainda não deu conta de algumas das suas limitações… Mas, não!! Não é mesmo possível! Ou será que houve alguma falha, algures???
O segundo, amarelinho como o pai Mangas, uma menina, nasceu meia hora depois e o último, também muito escurinho, às seis e meia. Afinal, a vet tinha razão: eram só três e o resto apenas celulite!! E já foram todos adoptados, felizmente. Aqui não há mais vagas!! Fechou para balanço!!
Este mês fui ao castigo: uma ida ao vet para fazer a avaliação da minha condição cárdio-respiratória. Andava muito cansada, com uma respiração muito pesada e passava já os dias deitada. Resolveram aumentar a dosagem de Fortekor e, agora, sinto-me mais forte e com vontade de viver estes dias maravilhosos. Diria mesmo, se não parecesse muito pindérico, que me sinto rejuvenescida e pronta para qualquer “apanha” seja de azeitona, seja da fruta que vai abundar na nossa quinta!!
Foi, no entanto, recomendado que descanse o mais possível e chegando a determinada hora é o que faço com muito gosto.
Adoro quando a noite cai e vou repousar. Sim, repousar, se é que tal é possível, com tanta animação que dá adrenalina à nossa rotina diária.
E deito-me! Deito-me na minha “cama da dona”. Refasteladinha, com a cabeça nas almofadas… É mesmo booommm!! Os meus músculos relaxam e os meus ossinhos doridos ficam mais confortáveis…
Esta minha descontraída comodidade só é interrompida pelos “ocupas”, meus companheiros, Nino e Miro, e pelo “elefante branco”, a Ammaia! A Ammaia, dantes, não conseguia subir para a minha cama da dona (eheheh…), mas, entretanto, o seu tamanho multiplicou (ohhhhh…).
O tempo passa muito confortavelmente, no quentinho das mantas que protegem o fofo edredon… E vou dormitando, sentindo a segurança da proximidade da “generala”, a trabalhar na salinha da TV, e dos restantes membros da família.
Eis que chega o momento menos desejado da noite: a dona arruma toda a papelada com que inunda sala atrás de sala, desce à única casa-de-banho que se encontra a funcionar e regressa para vestir o pijama. Finjo que não dou por nada. Até ressono para despistar e mantenho os olhos bem fechados.
A nossa querida humana cai que nem um patinho: com muito cuidado para não me incomodar, vai-se enfiando debaixo das roupas, ao mesmo tempo que me empurra suavemente para arranjar um lugarinho para se deitar. E eu, peso muito morto, continuo na minha, refastelada, sem um pestanejo que me possa denunciar…
A chata da mulher continua a ajeitar-se, sempre tentando não perturbar… Mas perturba! Incomoda!! Incomoda de tal forma que sou forçada a abandonar aquele meu espacinho de direito, caramba!! Não há mesmo respeito pela minha idade e focinho cada vez mais branco.
Vou, muito cabisbaixa, para a minha caminha. E vingo-me… Oh, se me vingo. Espero que ela esteja bem instaladinha e desligue a luz e deito-me… Começo a resmungar, levanto-me, dou voltas, esgravato o cobertor e volto a resmungar. E lá vem aquela boa alma: a luz acende-se, ela levanta-se, ajeita-me a caminha, aguarda que eu dê as minhas vinte mil voltinhas de aconchego e, então, tapa-me com aquele doce cobertor quentinho.
Deita- se e apaga a luz… Já bem acomodada e tapadinha, lembro-me que não acabei a dose de ração que me é devida e lá vou até à cozinha, de manto posto. O manto, claro!, é o cobertor… E volto… E resmungo, dou voltas, esgravato a cama sem cobertor, volto a resmungar… E a luz acende-se e a boa alma torna a levantar-se, ajeita a cama, espera pelas duzentas mil voltas, tapa-me, deita-se e apaga a luz…
Lembro-me de repente que tenho que beber água… O processo é o mesmo: levanto-me, vou de manto, bebo água, regresso, resmungo, esgravato, volteio, resmungo, a luz acende-se, alguém se levanta, a cama é ajeitada, mais duzentas e cinquenta mil voltas, sou tapada, alguém se deita, a luz apaga-se…
Ora, isto continuaria interminavelmente se…. À terceira ou quarta incursão, a luz acende-se e um vozeirão daqueles faz-se ouvir: “Olha lá, moça, estás a gozar comigo???” Estaco, pensativa… Quem? Euuu??? Nunca!!! E ela termina: “Petra, chega!!”
E ficamos assim…

terça-feira, 18 de maio de 2010

O Inverno, o lume, as cenas escaldantes…


As intempéries foram muito, muito desagradáveis!
Já passámos por muitos maus momentos, desde que para aqui viemos…Houve semanas de puro terror e cheguei a ver a chefinha a fazer a mala para irmos embora!!! Foi água, toneladas de água, por todo o lado, vento uivante dia e noite, ruídos assustadores, objectos a caírem ou a chocalharem… Noites em que não conseguíamos dormir não têm conta, tal era a inquietação!!
O medo que as janelas cedessem… Ou os telhados… Sei lá, numa casa tão antiga como esta, tudo é possível! Sim, a parede de um dos quartos perto do “nosso”, abriu de alto a baixo, “naquele” fim-de-semana do ciclone!!! Enfim…
A seguir a todas as doenças do Natal, a vida continuou com o ritmo habitual…
Fez, realmente, muito frio nestas terras altas… Temperaturas que nem sonhávamos que pudessem existir…
Às 05.30 da madrugada, a dona levantava-se e fazia o lume na lareira que fica na sala-cozinha, uma divisão que tem, agora, cerca de 50 m2. É uma bela lareira de chão, sim senhor!! Quando resultava, ou seja, o lume pegava, sempre dava um calorzinho às nossas enregeladas almas… Claro que não aguentava até ao regresso dela, não é?
Às cinco da tarde, chegava e lá recomeçava, cansada, a dispor a lenha como manda o figurino, pegava nos “chamiços” e lançava fogo àquilo tudo. Até corria bem, normalmente, e ficávamos com um belo lume, embora não chegasse para aquecer tanto m2!!
Havia dias em que o vento mudava para uma determinada direcção e o fumo não saía todo, o que provocava uma certa confusão irritativa, um pouco por todo este imenso lar…
Outros havia, em que, dada a má condição do sistema nervoso da nossa amada “mestra”, se instalava um perfeito estado de sítio!!!
Ela tem um “abanico”… Claro que não faço ideia se existe algum nome assim, mas que se adequa imenso àquela arma arrasadora, não tenho qualquer dúvida! É um artefacto de aspecto artesanal, com um design simples e até alegre, assim circular, feito, penso, em palhinha multicolor, espetado num pau… E para que serve?? Como o nome indica, para “abanicar” o lume!!!
Bem, por vezes o lume não “pega” à velocidade nervosa da nossa querida “mentora” humana, o que a leva a utilizar este precioso e perigoso item. E dá umas "abanicadas", a ver se a fogueira espevita. Pois, espevitar até espevita, mas a seguir desfalece. O stress que a sufoca leva a que insista nesta acção de incutir solidariedade aos apetecíveis paus de lenha… E vai de dar ao “abanico”… E ele é só fumo… E mais “abanicadas”… E o fumo avoluma-se… Vai espessando… As “abanicadas”, nesta altura tornam-se mais agressivas! O fumo, já muito espesso, sente necessidade de se expandir, pelo que vai avançando, ameaçadoramente… Sempre a crescer desmedidamente… A envolver-nos… A levar-nos à asfixia… Perseguindo-nos de sala em sala, de quarto em quarto, até que não resta qualquer saída!!
Tudo tosse, tudo espirra, aqui em casa, mesmo nos locais mais longínquos… Todos choram, as lágrimas caindo, espessas, um misto de água e fuligem! A dispneia ameaça-nos!
Eu, já meia cega devido às cataratas que me escurecem a vida, perco-me, tacteando, esbarrando e escorregando, enquanto tento refugiar-me numa das inúmeras assoalhadas!! E vou praguejando, lembrando, com saudade, a paz dos caloríferos de Alfragide… E muito ao longe, ao fundo de tanto smog, oiço a dona a resmungar entre dentes e arquejos: “Maldito vento!!”
Ok, fiquemos assim…
A nossa dona andou muito zombie. Mesmo muito, muito zombie!! Acho que foi de tudo um pouco: o facto de estar realmente doente, a adaptação a uma vida totalmente nova, a morte do Fausto e mais umas quantas decepções… nada de muito invulgar!!
O problema está em que, nessas alturas, torna-se pouco atenta. Por um lado, é bom, já que fica menos chata e mandona. Por outro, a maior parte das vezes, não resulta. O que é mau, muito mau!!!
A Cinza fez o primeiro cio, no fim de Dezembro e, como ainda restavam algumas das faculdades mentais à nossa humana, esta fechou-a até ao dia da esterilização. A Manchinha, como boa irmã que é, seguiu o exemplo sem que se desse logo por isso… Ninguém, não: o Mangas, esse personagem safado, inteligente, inventivo, ladrão sem par e D. Juan como poucos, estava lá!!! Um “mangas” do piorio!!
E aconteceu! O que a dona mais temia, aconteceu bem nas barbas dela, mas foi a única que não deu conta das cenas desavergonhadas entre os dois. Mas nós assistimos, chocados! Isto, numa família casta, de boas origens e melhores costumes… Um escândalo!!
A Manchinha, que sempre teve um apetite voraz, começou a engordar, a engordar, a engordar… Sobretudo na zona abdominal! A andar, toda aquela “celulite” sacudia. No entanto, a almiranta continuava sem reparar… Ia dando grandes sermões à moçoila sobre “alimentação saudável” e “prevenção da obesidade mórbida”!
Um dia, fez-se um pouco de luz naquela mente entorpecida pela humidade que se instalou pelo nosso “domus”: “Manchinha, tu não estás grávida, pois não??”… Nãããããoooo… Grávida?? Ideia mais esparvoada!!
Desconfiada, levou-a ao vet e… foi pior que as intempéries que nos têm assolado!! Não assisti ao que se passou após a consulta e respectiva ecografia… Nem era necessário, já que o grosso da bronca se deu aqui, no seio da família, à porta fechada!!
“Manchinha, não esperava isto de ti, galdéria!!” E vai de “abanicar” o lume… “Nem dá para interromper, não é?” Suspiro, seguido de silêncio e quatro violentas “abanicadas”. E recomeça: “E agora? Que vamos fazer da tua prole???” Silêncio e muito fumo… “Aqui não podem ficar, de forma alguma!!” Tom muito, mas muito peremptório! Nova pausa e mais uma ou duas “abanicadas”. A Manchinha olha para ela, sempre muito meiga, expectante, com aquele ar de “não há nada para comer?”. “E não me olhes assim, ok?”
Eu testemunho todo o caricato da cena, do sítio do costume. Fico melhor informada, como convém.
Não, ninguém foi ameaçado de ir para o gatil… ELA não é assim tão desumana.
E vou-me. Continuarei a contar tudo que se passou, noutros episódios, pois este já vai longo. Neste momento, reina uma imensa tristeza nesta “mansão”: o Simão foi internado ontem, por ameaça de falência do único rim que tem a funcionar… Enfim...
Quando chega a felicidade???