Sim, chegou, finalmente, após alguns ameaços mal sucedidos. Pode não aguentar assim, radioso e quente, mas o frio intenso que deu cabo da nossa resistência já não deve regressar tão cedo.
As portas para o jardim já ficam abertas o dia todo, a ver se a casa aquece e perde a humidade acumulada. Talvez seja agora que aquele cheiro, que nos tem entupido as narinas e se instalou em móveis, paredes e roupas, desapareça…
As andorinhas regressaram há meses, coitadas, sem saberem o que ainda as esperava e recuperaram os seus ninhos nos nossos beirais. Gosto de as ouvir, enquanto se apressam nas suas tarefas diárias… Ao mesmo tempo, começou nova etapa de angústia para a dona: impedir que caiam nas garras da Maria… e seus acólitos! Sim, o Mangas e a Cinzas já demonstraram que também são predadores implacáveis. E a Misha??? Está do piorio!!
Há tempos, apareceram penas sobre uma das bancadas da lareira, de manhã, bem cedinho. Desgrenhada, bocejando e resmungando, como é hábito, a dona estacou, petrificada, olhos muito arregalados… Vá lá, o sono era tanto que deve ter decidido adiar a cena do costume para a parte da tarde. Sim, de manhã, o calendário é sempre muito apertado, entre a distribuição das rações felinas, a alimentação da “Moby Dick” (Ammaia) e a nossa, e, na altura, ainda cá estavam os “netinhos”…
A visita matinal aos queridos “rebentos” era indispensável e obrigatória: “ Então, pequeninos… Estão tão gaaandes… Quando é que abrem os olhinhos? O mundo é tão liiiindooo!!” “Pois”, pensava eu, “sobretudo lindo!!! Vamos ver como o mundo é liiiindooo logo à tarde!!”
A rapaziada nasceu no dia 14 de Março, dia em que a dona ia visitar o “Avô” e tinha que se levantar às 04.30… da manhã! Praticamente, não dormiu pois a Manchinha estava muito mais chata do que é natural nela. Não tinha posição, andava de cama para cama, incomodando tudo e todos, e lambia-se constante e ruidosamente. À noite dá mesmo um jeitão: qualquer ruídinho de nada toma enormes proporções e impede que nos concentremos no sono, com dedicação e empenho…
Às cinco da manhã, grande alarido: tinha nascido o primeiro “neto”.Um ser muito pequenino, todo lambuzado e preto retinto… Huuummm… Olhámos pensativamente para o Binxas, que ainda não deu conta de algumas das suas limitações… Mas, não!! Não é mesmo possível! Ou será que houve alguma falha, algures???
O segundo, amarelinho como o pai Mangas, uma menina, nasceu meia hora depois e o último, também muito escurinho, às seis e meia. Afinal, a vet tinha razão: eram só três e o resto apenas celulite!! E já foram todos adoptados, felizmente. Aqui não há mais vagas!! Fechou para balanço!!
Este mês fui ao castigo: uma ida ao vet para fazer a avaliação da minha condição cárdio-respiratória. Andava muito cansada, com uma respiração muito pesada e passava já os dias deitada. Resolveram aumentar a dosagem de Fortekor e, agora, sinto-me mais forte e com vontade de viver estes dias maravilhosos. Diria mesmo, se não parecesse muito pindérico, que me sinto rejuvenescida e pronta para qualquer “apanha” seja de azeitona, seja da fruta que vai abundar na nossa quinta!!
Foi, no entanto, recomendado que descanse o mais possível e chegando a determinada hora é o que faço com muito gosto.
Adoro quando a noite cai e vou repousar. Sim, repousar, se é que tal é possível, com tanta animação que dá adrenalina à nossa rotina diária.
E deito-me! Deito-me na minha “cama da dona”. Refasteladinha, com a cabeça nas almofadas… É mesmo booommm!! Os meus músculos relaxam e os meus ossinhos doridos ficam mais confortáveis…
Esta minha descontraída comodidade só é interrompida pelos “ocupas”, meus companheiros, Nino e Miro, e pelo “elefante branco”, a Ammaia! A Ammaia, dantes, não conseguia subir para a minha cama da dona (eheheh…), mas, entretanto, o seu tamanho multiplicou (ohhhhh…).
O tempo passa muito confortavelmente, no quentinho das mantas que protegem o fofo edredon… E vou dormitando, sentindo a segurança da proximidade da “generala”, a trabalhar na salinha da TV, e dos restantes membros da família.
Eis que chega o momento menos desejado da noite: a dona arruma toda a papelada com que inunda sala atrás de sala, desce à única casa-de-banho que se encontra a funcionar e regressa para vestir o pijama. Finjo que não dou por nada. Até ressono para despistar e mantenho os olhos bem fechados.
A nossa querida humana cai que nem um patinho: com muito cuidado para não me incomodar, vai-se enfiando debaixo das roupas, ao mesmo tempo que me empurra suavemente para arranjar um lugarinho para se deitar. E eu, peso muito morto, continuo na minha, refastelada, sem um pestanejo que me possa denunciar…
A chata da mulher continua a ajeitar-se, sempre tentando não perturbar… Mas perturba! Incomoda!! Incomoda de tal forma que sou forçada a abandonar aquele meu espacinho de direito, caramba!! Não há mesmo respeito pela minha idade e focinho cada vez mais branco.
Vou, muito cabisbaixa, para a minha caminha. E vingo-me… Oh, se me vingo. Espero que ela esteja bem instaladinha e desligue a luz e deito-me… Começo a resmungar, levanto-me, dou voltas, esgravato o cobertor e volto a resmungar. E lá vem aquela boa alma: a luz acende-se, ela levanta-se, ajeita-me a caminha, aguarda que eu dê as minhas vinte mil voltinhas de aconchego e, então, tapa-me com aquele doce cobertor quentinho.
Deita- se e apaga a luz… Já bem acomodada e tapadinha, lembro-me que não acabei a dose de ração que me é devida e lá vou até à cozinha, de manto posto. O manto, claro!, é o cobertor… E volto… E resmungo, dou voltas, esgravato a cama sem cobertor, volto a resmungar… E a luz acende-se e a boa alma torna a levantar-se, ajeita a cama, espera pelas duzentas mil voltas, tapa-me, deita-se e apaga a luz…
Lembro-me de repente que tenho que beber água… O processo é o mesmo: levanto-me, vou de manto, bebo água, regresso, resmungo, esgravato, volteio, resmungo, a luz acende-se, alguém se levanta, a cama é ajeitada, mais duzentas e cinquenta mil voltas, sou tapada, alguém se deita, a luz apaga-se…
Ora, isto continuaria interminavelmente se…. À terceira ou quarta incursão, a luz acende-se e um vozeirão daqueles faz-se ouvir: “Olha lá, moça, estás a gozar comigo???” Estaco, pensativa… Quem? Euuu??? Nunca!!! E ela termina: “Petra, chega!!”
E ficamos assim…